terça-feira, 14 de abril de 2026

Os Pais Traídos pela Ideologia: Quando o Amor se Torna “Transfobia” ou “Homofobia”

 


No livro Irreversible Damage (2020), Abigail Shrier documenta com rigor jornalístico uma das tragédias mais silenciosas da nossa época: a forma como uma parte do activismo transgénero transforma adolescentes em cruzados contra os próprios pais. A mensagem que chega aos jovens nas redes sociais, nas escolas e nas clínicas de “afirmação de género” é cristalina: se a família não aplaudir imediatamente a nova identidade — se não passar a chamar Joana ao João, se não aceitar que o filho se reduza a um rótulo de “trans”, “não-binário”, “lésbica”, “bi” ou “gay” —, então essa família é abusiva. O remédio? Cortar laços. Bloquear. Declarar os pais “mortos para mim”. E tudo isto é apresentado como um acto de coragem e de auto-preservação.

Os pais apanhados no meio desta trama não são monstros conservadores nem fanáticos religiosos. São, na maioria dos casos, gente comum: mães e pais que criaram os filhos com amor, que os levaram ao futebol, aos exames, às férias e que os viram crescer com as inseguranças normais da adolescência. De repente, a filha de 14 anos, que ontem falava de rapazes e de acne, chega a casa com o cabelo rapado, a binder a esmagar o peito e a exigência de hormonas. Qualquer hesitação — “Vamos falar com um psicólogo primeiro?”, “Tens a certeza de que isto não é influência do TikTok?” — é interpretada como ódio. Não há espaço para o “talvez seja uma fase” nem para o “vamos explorar o que está por trás desta angústia”. Afirmar ou morrer. Literalmente.

Este mecanismo não se limita ao transgenerismo; estende-se também à orientação sexual. Um exemplo claro é o de pais confrontados com um filho que se assume como homossexual após sofrer bullying severo na escola. Colegas e até professores rotulavam-no constantemente de “gay” pelos seus trejeitos mais efeminados. Pressionado e confuso, o rapaz chegou a verbalizar a terceiros e aos pais: “Se todos dizem que eu sou gay, é porque devo ser”. Em vez de rejeitarem o filho ou o tentarem “mudar”, os pais — com o consentimento dele — procuraram um psicólogo. Não para “curar” a homossexualidade, mas para ajudar o adolescente a distinguir o que nasce do seu íntimo daquilo que é uma resposta ao trauma externo. Queriam que ele explorasse os seus sentimentos verdadeiros, longe da pressão social que o havia transformado num rótulo ambulante. Pensavam, com razão, que a auto-afirmação podia ser mais uma estratégia de sobrevivência ao bullying do que uma orientação sexual inata e imutável.

O impacto no contexto escolar agrava dramaticamente esta dinâmica.

As escolas tornaram-se um dos principais vectores de transmissão da ideologia de género. Muitas adoptam políticas de “afirmação imediata” que incluem a alteração de nome e pronomes sem informar ou obter o consentimento dos pais — uma prática que tribunais em vários países, nomeadamente nos EUA, já consideraram inconstitucional por violar direitos parentais fundamentais. Professores e conselheiros são instruídos para ocultar da família a “transição social” da criança, criando planos de suporte de género sigilosos. O resultado é uma alienação parental institucionalizada: a escola assume-se como aliada do aluno contra a família, reforçando a narrativa de que os pais são o obstáculo.

A Revisão Cass, no Reino Unido, foi inequívoca: a “transição social” (mudança de nome, pronomes, vestuário ou acesso a casas de banho) não é um acto neutro. Pode consolidar uma disforia passageira, contribuir para o contágio social — especialmente em grupos de raparigas — e iniciar um percurso difícil de reverter. A explosão de referenciações à clínica Tavistock coincidiu com a proliferação de clubes GSA (Gender and Sexuality Alliances), materiais curriculares que apresentam o sexo como um espectro fluido e com a pressão de pares nas redes sociais. Surgem agora grupos de disforia de início rápido em turmas inteiras, tal como descrito por pais e pela investigação de Lisa Littman sobre a ROGD (Rapid Onset Gender Dysphoria). 

O que antes era um transtorno raro, com maior incidência em rapazes e manifestado desde a infância, passou a afectar sobretudo raparigas adolescentes sem historial prévio — muitas delas com comorbilidades como ansiedade, depressão, autismo ou traumas de bullying.

Nas escolas, o bullying tradicional motivado por trejeitos efeminados ou masculinidade atípica não desapareceu; transformou-se. Alunos que não se conformam com estereótipos sexuais continuam a ser alvo de estigma, mas a ideologia vigente rotula qualquer hesitação como “ódio”: questionar a afirmação imediata é classificado como transfobia ou homofobia, mesmo quando pais ou professores procuram apenas compreensão e terapia exploratória. O aluno que interioriza a ideia de que “se todos dizem que sou gay/trans…” encontra na escola validação instantânea, em vez de um espaço para reflectir sobre a pressão social. O verdadeiro bullying — isolamento, exclusão ou agressão — acaba, muitas vezes, por ser ignorado ou redefinido quando colide com estas questões identitárias.

Não é exagero. Relatos semelhantes multiplicam-se em fóruns de pais de ROGD (Rapid Onset Gender Dysphoria), em livros como Lost in Trans Nation de Miriam Grossman ou nas audiências públicas que precederam a proibição da transição de menores no Reino Unido, Suécia, Finlândia e vários estados americanos. 

Existem detransicionadores — jovens que interromperam o processo e hoje olham para trás com horror — que descrevem exactamente o mesmo guião: “Os activistas diziam-me que os meus pais eram o problema. Quando desisti, percebi que os tinha perdido por causa de uma mentira que me venderam como verdade.”

O mais cruel é a inversão moral. 

O pai ou a mãe que se recusa a celebrar a mastectomia da filha de 16 anos ou a castração química do filho de 15 — ou, no caso do bullying sexual, que pede simplesmente tempo e terapia exploratória para um rapaz que ecoa “se todos dizem que sou gay…” — é acusado de “não querer que o filho seja feliz”. Como se o amor se medisse pela velocidade com que se aceita que uma criança se esterilize, se mutile ou se reduza a um impulso sexual, em nome de uma identidade fluida que, até há uma década, a própria medicina considerava um transtorno raro e grave. Estudos sérios (Cass Review no Reino Unido, relatórios da Sociedade Sueca de Psiquiatria Infantil, o próprio follow-up da clínica Tavistock) mostram que a maioria dos casos de disforia de género na infância e adolescência se resolve naturalmente com terapia exploratória — precisamente aquela que os activistas mais combatem. O mesmo princípio aplica-se à orientação sexual quando existe trauma ou pressão externa: questionar não é ódio, é responsabilidade.

Os pais não são “transfóbicos” nem “homofóbicos” por questionarem. São responsáveis. Sabem que o cérebro adolescente não está maduro para decisões irreversíveis. Sabem que a taxa de desistência histórica era superior a 80% antes da era da “afirmação imediata”. Sabem que reduzir um ser humano inteiro — com a sua história, os seus talentos, os seus medos — a um rótulo sexual ou de género é uma forma de empobrecimento psicológico, não de libertação. E sabem, acima de tudo, que o filho que hoje os trata como inimigos é o mesmo que, daqui a cinco ou dez anos, poderá acordar arrependido e sem família para o acolher.

Esta não é uma batalha abstracta entre “direitos trans/LGBTQ+” e “direitos dos pais”. É uma batalha pela integridade emocional de uma geração. Os pais que resistem não estão a rejeitar o filho; estão a proteger a criança que ainda existe sob a máscara ideológica. O verdadeiro acto de ódio é o que encoraja o corte de laços familiares como prova de lealdade a uma causa. O verdadeiro acto de amor é dizer: “Eu vejo-te por inteiro. Não vou fingir que uma hormona, uma cirurgia ou um rótulo imposto pelo bullying te vai resolver a vida. Estou aqui, mesmo quando me odeias por isso.”

Até que a sociedade recupere o bom senso e volte a tratar a disforia de género e as confusões de identidade sexual como problemas de saúde mental — e não como identidades sagradas que exigem sacrifício familiar —, estes pais vão continuar a pagar o preço mais alto: perder o filho vivo em nome de uma utopia que promete felicidade e entrega, na prática, esterilidade, mutilação, solidão ou uma autodefinição superficial. E o pior é que, quando o arrependimento chegar, muitos desses jovens já não terão para onde voltar. Os pais, esses, estarão lá. Partidos, mas lá. Porque o amor verdadeiro não se bloqueia com um clique.

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Portugal a caminho da proibição de bloqueadores: o que revela o texto de Marisa Antunes






Numa publicação recente no LinkedIn, a portuguesa Marisa Antunes agradece publicamente ao jornalista australiano Bernard Lane por expor, perante a sua rede internacional, a realidade do transactivismo médico em Portugal. O título da publicação resume o cerne da notícia: “Portugal on track to ban blockers” (Portugal a caminho de proibir os bloqueadores).

Antunes destaca que Lane a incluiu no seu artigo, partilhando “um pouco do que também aqui se passa”. A autora critica o silêncio dos seus colegas médicos e dos jornalistas portugueses que, segundo afirma, “calam as vozes de pais, mães, médicos e juristas que pretendem denunciar este crime”. Para Antunes, o debate interno encontra-se bloqueado pela “conivência pantanosa” da imprensa nacional, sendo o olhar externo — como o de Lane — que confere visibilidade ao tema.

O que está em causa?

A expressão “ban blockers” refere-se a um projecto de lei do CDS-PP (centro-direita democrata-cristão) que visa proibir o uso de bloqueadores de puberdade e hormonas do sexo oposto em menores com disforia de género. O projecto invoca o direito das crianças ao “pleno desenvolvimento” e à protecção das suas escolhas de vida futuras.

A proposta baixou à Comissão de Assuntos Constitucionais após o debate em sessão plenária a 20 de Março de 2026. Esta iniciativa integra um conjunto de três projectos legislativos da direita que procuram limitar a medicalização de género em menores.

O artigo de Bernard Lane (publicado no Gender Clinic News) alerta ainda para casos concretos em Portugal: crianças de apenas 11 anos serão referenciadas para bloqueadores logo na primeira consulta, sendo inclusivamente informadas sobre cirurgias futuras na mesma ocasião.

A publicação de Marisa Antunes, sem entrar em detalhes técnicos, serve de altifalante a esta notícia internacional e à denúncia de que o debate sobre a protecção de menores está a ser abafado internamente. Em suma, Antunes manifesta a esperança de que uma mudança legislativa ponha fim à medicalização precoce de crianças e adolescentes, reconhecendo que, por agora, esta discussão carece de vozes externas para ser ouvida em Portugal.


sábado, 11 de abril de 2026

Refutação às afirmações de Susana Peralta sobre a Lei 15/2024 e ao uso instrumental do caso Miguel Salazar

 



No debate em questão (excerto disponível no X a partir do tweet de @TTduty), Susana Peralta defende a Lei n.º 15/2024, que criminaliza as chamadas “práticas de conversão sexual” contra pessoas LGBT+, incluindo actos destinados a “alterar, limitar ou reprimir” a orientação sexual, identidade ou expressão de género. A lei prevê penas até 3 anos de prisão (ou 5 anos em casos de modificações irreversíveis).

Analiticamente, pretendo expôr as principais falácias presentes na intervenção de Peralta:

  • Confusão deliberada de conceitos

Peralta mistura propositadamente a orientação sexual com a identidade de género. No que toca à orientação sexual, a ciência reconhece que esta pode ser fluida, especialmente durante a adolescência e o início da idade adulta (young adulthood). Contudo, em adultos, os especialistas referem-se a uma atracção estável: embora não se afirme uma imutabilidade biológica de 100%, a orientação não é considerada uma "escolha" passível de ser alterada por terapias externas. Importa notar que, embora a maioria das associações internacionais classifique as “terapias de conversão” como ineficazes e prejudiciais, este entendimento não é unânime: existem vozes discordantes, tanto na comunidade médica como em sectores conservadores, que defendem a liberdade terapêutica e o direito à procura de aconselhamento que respeite a identidade moral ou religiosa do indivíduo. 

A Cass Review (2024) aponta para taxas de desistência entre 60% e 90% sem intervenção afirmativa, dados que são contestados por organizações como a WPATH, que defende a afirmação imediata como essencial. No entanto, a fidedignidade da WPATH foi recentemente posta em causa pelo vazamento de comunicações internas (WPATH Files), nas quais profissionais de saúde da própria organização admitem que as crianças e adolescentes não possuem maturidade cognitiva para compreender as implicações irreversíveis e os riscos de longo prazo dos tratamentos de "mudança de sexo".

 A lei amalgama ambas as realidades num mesmo pacote, como se fossem idênticas. Enquanto as “terapias de conversão” clássicas para a orientação sexual são ineficazes e prejudiciais (consenso APA/OMS), a disforia de género em menores apresenta taxas de desistência de 60-90% sem intervenção afirmativa (estudos pré-2010 e Cass Review, Reino Unido, 2024). Vários países europeus (Suécia, Finlândia, Noruega, Inglaterra) restringiram bloqueadores de puberdade e hormonas precisamente pela falta de evidência robusta e pelos riscos graves (osteoporose, infertilidade, impacto cognitivo).

  • Homem de palha

Peralta caricatura a posição contrária: sugere que pedir a um jovem que “reconsidere” equivaleria a levá-lo ao psicólogo para “curar” a orientação sexual. Ninguém sério defende electrochoques ou abusos dos anos 70. A crítica real à lei incide na vagueza das definições (“actos que visem a alteração ou repressão”), que pode criminalizar pais que questionem uma filha de 12 anos declarada trans após exposição a redes sociais, ou psicólogos que optem por uma terapia exploratória neutra (recomendada pela Cass Review) em vez da afirmação imediata. 

A Provedora de Justiça já questionou a constitucionalidade da lei, precisamente por violação do princípio da tipicidade penal: os termos são tão abrangentes que se torna impossível delimitar claramente o crime.

  • Petição de princípio e apelo à emoção

Afirmar que “são pessoas normais” e que a lei deve proteger o direito “a serem o que são”, mesmo que “subjectivo”, assume como premissa o que está em debate. A ciência não valida a ideia de que a afirmação médica imediata é sempre benéfica, especialmente em menores. Estudos mostram desistências, efeito de contágio social (rapid-onset gender dysphoria) e taxas crescentes de detransição, com pior saúde mental a longo prazo em alguns grupos europeus. Transformar o debate numa questão moral (“ou proteges ou odeias”) é retórica activista, não argumento racional.

  • Falso dilema
Sugere que ou se proíbe qualquer questionamento/psicoterapia, ou não existe protecção alguma. Antes da Lei 15/2024 já existiam normas contra a coacção, a violência e a discriminação. A nova lei cria um efeito inibidor (chilling effect) sobre famílias e profissionais de saúde, que evitam casos de género por receio de processos criminais.

  • Adição factual: o caso concreto de Miguel Salazar

Susana Peralta (e outros activistas) recorrem frequentemente a exemplos pessoais como o de Miguel Salazar para ilustrar a alegada necessidade da lei, apresentando-o como vítima de “terapias de conversão” e violência doméstica por parte da mãe.

Estas afirmações são falsas, conforme a negação categórica e pública no comunicado enviado aos meios de comunicação social e publicado no Sete Margens a 10 de Abril de 2026:

“Negamos categoricamente todas as alegações de violência física ou psicológica contra o nosso filho, que hoje é adulto. Jamais o agredimos ou maltratámos por qualquer motivo – nomeadamente pela sua orientação sexual – e nunca proferimos as afirmações que nos são atribuídas. Tais alegações são falsas, distorcidas e não correspondem à realidade. Lamento a instrumentalização político-ideológica deste meu desacordo familiar, usado como arma para silenciar vozes conservadoras e cristãs que, como a minha, se opõem à medicalização precipitada de crianças e adolescentes. Apelo a um jornalismo responsável e plural, que respeite a minha liberdade de consciência e de religião."

Como mãe e acusada direta, tenho direito ao contraditório. É obrigação ética e deontológica da TVI (ou CNN Portugal) publicar o meu comunicado na íntegra, garantindo o equilíbrio informativo. O facto de o meu filho, Miguel Salazar, como adulto, ter optado por expor publicamente o nosso conflito familiar não me obriga a retribuir na mesma medida, nem isenta os media de respeitarem o meu direito ao contraditório sem sensacionalismo. Tenho mantido a dignidade de não expor o meu filho em praça pública, mesmo discordando totalmente da narrativa que tem sido veiculada. 

Informo, por isso, que será enviada uma queixa à ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social) no sentido de garantir que o meu comunicado seja exibido no mesmo programa e na presença da comentadora Susana Peralta, assegurando assim o devido equilíbrio e o meu direito de resposta perante as falsas acusações emitidas.


Conclusão

A intervenção de Susana Peralta baseia-se em equívocos conceptuais, caricaturas e apelos emocionais, ignorando a distinção científica entre orientação sexual e identidade de género, bem como a evidência internacional que leva vários países a recuar na “afirmação” imediata em menores. Quando recorre ao caso de Miguel Salazar, fá-lo com base numa narrativa unilateral já desmentida por mim, configurando um uso político de um conflito familiar privado.

A Lei 15/2024 não protege: cria um crime de intenção subjectiva que ameaça o papel parental e a liberdade terapêutica. A ciência (Cass Review e equivalentes europeus) está a corrigir o rumo. Portugal deveria seguir o exemplo da cautela europeia em vez de criminalizar o debate.


A verdade contra a distorção: O meu livro não considera a homossexualidade uma doença

 


Lamentavelmente, a perseguição movida por sectores da esquerda e colectivos de agenda identitária não abranda, tendo culminado em ameaças à minha integridade física. É o resultado de mentiras deliberadas em busca de protagonismo. O facto de se distorcer um trabalho de 313 páginas, através do uso de escassas passagens retiradas do seu contexto, revela a falta de escrúpulos e de rigor de quem me tenta silenciar. Revela, aliás, uma ignorância e uma má-fé gritantes: o meu acusador nem sequer foi capaz de acertar no título do livro que pretende atacar e tenta desqualificar-me chamando-me "pseudo-doutora". É um ataque baixo e irónico, pois passo a vida a corrigir quem se dirige a mim como "doutora" — o que acontece com frequência — precisamente por prezar a verdade. Não me arrogo títulos que não tenho; o que faço, e o meu acusador sabe-o bem, é pesquisar e estudar a ideologia de género com rigor há mais de 10 anos.



Face a estas manipulações, quero ser inequívoca: o meu livro não considera a homossexualidade uma doença. A acusação de que sou uma "ideóloga anti-LGBT+" baseia-se numa distorção clássica, feita através de uma escolha selectiva de excertos, sem ler o contexto completo nem distinguir o que o texto realmente afirma. 

Vou desmontar esta narrativa de forma clara e factual, com base nas páginas citadas (21, 50, 67, 68 e 69) e no contexto histórico das fontes que utilizo.

1. O que eu não escrevi no meu livro

Nos excertos que têm circulado, não existe uma única frase minha a afirmar que a "homossexualidade é uma doença".

A única menção directa a uma perspectiva médico-psiquiátrica sobre este tema provém de uma citação de Charles W. Socarides (pág. 21), e não da minha voz autoral. Os restantes trechos focam-se na identidade de género, disforia de género e transexualismo, e não na orientação sexual.


Na pág. 67, abordo a heterossexualidade como o mecanismo natural de reprodução da espécie (um facto biológico: apenas a união entre macho e fêmea gera descendência). Critico a "desconstrução da família natural" por rejeitar a heterossexualidade como norma e promover a homossexualidade como igualmente "natural e desejável". Esta é uma posição filosófica, antropológica e cristã — não é uma afirmação médica de patologia.


Como cristã, a minha visão é clara: vejo a homossexualidade como pecado, não como doença. Alinho-me com a posição tradicional cristã, onde os actos são considerados moralmente errados, mas a atracção em si não é equiparada a uma patologia psiquiátrica. O meu livro separa claramente estes conceitos, mas este esclarecimento não trava o ataque à minha liberdade religiosa. 

O que estamos a assistir é a uma tentativa de me queimar em praça pública, nas novas fogueiras desta 'inquisição do arco-íris' que não admite o pensamento divergente.

2. O contexto de Charles W. Socarides

Cito Charles W. Socarides (1922–2005), psiquiatra e professor na Albert Einstein College of Medicine, para ilustrar um contexto histórico. Durante décadas, ele defendeu que a homossexualidade era uma neurose resultante de conflitos na primeira infância e opôs-se à decisão da APA, em 1973, de retirar a homossexualidade do DSM-II, por considerar que a mudança foi política e não científica.

Embora as ideias de Socarides sejam hoje rejeitadas pela maioria das associações oficiais, citá-lo não significa subscrever todas as suas teses. Utilizo-o como um exemplo histórico da visão psiquiátrica antes da viragem de 1973 e para ilustrar a crítica à promoção cultural da homossexualidade. Num livro que confronta "ideologia vs. ciência", este recurso é legítimo.

3. O verdadeiro foco: Disforia de Género (págs. 50, 68, 69)



Aqui, o meu texto é explícito:

  • Defendo que a disforia de género é uma condição da mente, não do corpo (pág. 69). Isto acompanha o diagnóstico do DSM-5 (2013), que mantém a "Disforia de Género" devido ao sofrimento e às doenças mentais associadas.
  • Recordo o facto histórico de que, até 2012/2013, o DSM classificava o "transexualismo" como uma parafilia grave (pág. 50).
  • Critico a Lei n.º 15/2024, que proíbe as chamadas 'práticas de conversão', pois argumento que esta legislação deixa os profissionais de saúde sem ferramentas para tratar quem sofre de disforia ou confusão real (pág. 69), impedindo a terapia exploratória necessária. 
Sobre este ponto, é gritante a contradição política: no debate sobre a revogação da Lei 38/2018, a deputada Mariana Leitão, da IL, afirmou que o acompanhamento por equipas multidisciplinares e a terapia exploratória estariam salvaguardados. Ora, o que a lei fez, na prática, foi acabar com esse rigor, entregando crianças a profissionais que as diagnosticam como transgénero em apenas 10 ou 15 minutos.

A incoerência do sistema é total: a Dr.ª Zélia Figueiredo, psiquiatra e coordenadora do Grupo de Acompanhamento da Implementação da Estratégia de Saúde para as Pessoas LGBTI, afirma publicamente que o transgenerismo não é doença e que, por isso, não precisa de diagnóstico. Se não há patologia nem necessidade de diagnóstico, para que servem então as equipas multidisciplinares de saúde e o suposto acompanhamento? O que existe é uma via verde ideológica que atropela a prudência médica.

4. A instrumentalização política e a mentira sobre a "Bíblia do CHEGA"

Esta campanha procura também prejudicar o partido CHEGA, utilizando imagens minhas em eventos partidários e rotulando absurdamente a minha obra como a "Bíblia do Chega". Alega-se que o livro é usado para fundamentar a revogação da Lei n.º 38/2018, ignorando deliberadamente que o PSD e o CDS-PP também apresentaram projectos no mesmo sentido. O Parlamento aprovou a revogação desta lei em Março de 2026 com os votos favoráveis das três bancadas (PSD, CHEGA e CDS-PP), reintroduzindo a necessidade de validação médica para menores. Tentar colar este movimento legislativo exclusivamente a mim ou ao CHEGA é uma desonestidade intelectual profunda.

O meu livro — "Identidade de Género — Ideologia ou Ciência?" — faz o que promete: confronta a ideologia de género com dados, distinguindo orientação sexual de identidade de género. As acusações que misturam estes conceitos servem apenas para criar um rótulo de "homofobia" onde existe, na verdade, uma crítica fundamentada à medicalização de menores e à imposição ideológica. Além disso, a corrente dominante da psiquiatria é utilizada nestas críticas para silenciar vozes dissonantes.

Resumo: a mentira desmontada

A acusação de que considero a homossexualidade uma doença é falsa. Quem partilha estes posts sabe perfeitamente que defendo uma visão conservadora/cristã e científica contra a ideologia de género. Na verdade, todas as acusações que têm sido ditas e repetidas sobre mim ad nauseam são tão falsas como as acusações feitas ao meu livro; isto demonstra tudo sobre quem está a mentir, movido por motivações político-ideológicas. 

O livro distingue a moralidade (pecado) da patologia (disforia). Quem partilha estes ataques prefere o rótulo fácil ao debate de argumentos. O meu livro está disponível para quem o quiser ler na íntegra, em vez de se basear em meia-dúzia de isoladas de quem nem sequer leu a contra-capa.


quinta-feira, 9 de abril de 2026

O Público e o Engodo da Contra-Petição do Arco-Íris

 


A petição nacional “Pelo Fim da Ideologia de Género nas Instituições e pela Revogação da Lei 15/2024”, NÃO é uma «defesa das terapias de conversão em crianças». É exactamente o contrário: trata-se de uma defesa da liberdade científica, da ética médica e do direito dos menores a um acompanhamento psicológico sério, exploratório e não ideológico.  

Os activistas do «arco-íris» e a comunicação social alinhada (nomeadamente o jornal Público) diabolizam deliberadamente esta petição — que reuniu mais de 16 800 assinaturas — para ocultar que a Lei 15/2024 é uma lei mal redigida, maniqueísta, inconstitucional e perigosa para as crianças. O jornal Público, em pleno activismo ideológico, promove activamente uma contrapetição que já ultrapassou as 50 mil assinaturas em apenas cinco dias, mentindo e desinformando ao afirmar que a petição original visa a “descriminalização das terapias de conversão sexual” — quando, na verdade, o que se pede é simplesmente a revogação de uma lei repressiva que transforma o bom senso clínico e parental em crime. Não proíbe a «tortura»; proíbe, sim, o exercício livre da medicina e da psicologia sempre que estas não se submetam ao modelo afirmativo de género. 

Pior ainda: a mesma lei criminaliza os próprios pais que não afirmem imediatamente a identidade de género dos seus filhos — tenham eles a idade que tiverem —, prevendo a inibição do exercício das responsabilidades parentais por 5 a 20 anos (art. 69.º-C, n.º 3 do Código Penal) quando o suposto “crime” for praticado contra um descendente.  Esta é a verdadeira face da lei: transforma o cuidado parental normal, a prudência clínica e a liberdade de pensamento em actos puníveis pelo Estado ideológico. 

A petição não defende “conversão”; defende que os pais e os médicos não sejam transformados em criminosos por recusarem a engenharia social sobre os corpos e as mentes das crianças. A campanha de desinformação do Público e da contra-petição que ele impulsiona não passa de mais uma tentativa de calar o debate com mentiras grosseiras — e prova, uma vez mais, que a ideologia de género precisa de censura e manipulação para sobreviver.

Esta é a verdadeira face da lei: transforma o cuidado parental normal, a prudência clínica e a liberdade de pensamento em actos puníveis pelo Estado ideológico. A petição não defende “conversão”; defende que os pais e os médicos não sejam transformados em criminosos por recusarem a engenharia social sobre os corpos e as mentes das crianças.

Como afirma à Sábado, com precisão cirúrgica, o Dr. Abel Matos Santos, profissional de saúde mental:

«Em primeiro lugar, não sei o que são terapias de conversão! Em psicologia, na psiquiatria, em saúde mental, não convertemos ninguém; não somos uma seita. O papel do profissional de saúde mental é o de ajudar o paciente a esclarecer-se, auxiliando-o na reflexão sobre a sua vida, os seus problemas e aquilo que o afecta. É claro e óbvio que a Lei 15/2024 interfere gravemente e limita o livre exercício da profissão, prejudicando seriamente os doentes e as pessoas que precisam de apoio, ajuda e tratamento.»

E continua, expondo a hipocrisia da lei:

«Primeiro, criou-se o chavão das "terapias de conversão" que, como já afirmei, desconheço o que sejam — talvez porque não existam. Depois, acusam todo e qualquer profissional de saúde que observe os mais básicos princípios deontológicos e éticos, no exercício da sua profissão, de fazer terapias de conversão, excepto se for no sentido afirmativo de identidade. Estas, sim, serão as verdadeiras terapias de conversão? Dado que não exploram nem ajudam o doente à reflexão e ao auto-conhecimento, mas orientam-no num sentido único.»

Exactamente isto. A lei criminaliza a cautela (a avaliação de comorbilidades como o autismo, trauma, depressão, influência social ou homofobia internalizada) e obriga à afirmação imediata, mesmo quando o menor apresenta um diagnóstico rápido e superficial de disforia de género. O Artigo 176.º-C do Código Penal utiliza conceitos indeterminados («práticas de conversão», «repressão», «actos dirigidos à alteração») que transformam qualquer psicoterapia exploratória num crime passível de 3 a 5 anos de prisão, acrescidos de uma interdição profissional de 5 a 20 anos de contacto com menores.

Isto não é protecção: é ideologia de Estado imposta por via penal. O modelo afirmativo — que a lei protege como única abordagem legítima — ignora o princípio bioético primum non nocere. Os bloqueadores de puberdade interferem na maturação cerebral; as hormonas cruzadas causam esterilidade irreversível; as cirurgias mutilam corpos saudáveis. Estudos de acompanhamento (follow-up) curtos escondem as taxas reais de arrependimento e desistência (detransition). Muitos menores com disforia são simplesmente homossexuais em desenvolvimento ou vítimas de trauma — e a «transição» funciona, nestes casos, como uma forma moderna de «conversão» para o sexo oposto.

A petição não pede «liberdade para converter crianças». Pede a revogação de uma lei que converte a medicina num instrumento de engenharia social. Como o profissional de saúde resume, com ironia devastadora:

«Uma sociedade e um Estado que legislam para criminalizar profissionais de saúde que não se conformam com a ideologia do legislador é um Estado falhado e em decadência. Por isso, claro que concordo com a petição para a revogação desta lei iníqua, injusta e desadequada da realidade. Não pode existir nenhuma lei que diga como um profissional de saúde se deve comportar num contexto clínico […]. O profissional tem de actuar de acordo com as boas práticas, a legis artis e o código deontológico. Não podem nem devem existir entraves jurídicos, políticos e ideológicos, como acontece com a lei 15/2024.»

A Provedoria de Justiça já solicitou ao Tribunal Constitucional a declaração de inconstitucionalidade de várias normas da lei «com força obrigatória geral». A petição de 17 mil cidadãos apenas antecipou o que o bom senso, a ciência e a ética médica já sabiam: proteger crianças não é proibir o debate, a reflexão e o cuidado clínico prudente. É exactamente o contrário do que os activistas pretendem fazer crer.

A narrativa de que «a petição quer terapias de conversão em crianças» é uma mentira pura. É a Lei 15/2024 que, ao criminalizar a prudência, abre caminho a uma experimentação médica irreversível sobre menores — financiada pelo Estado e protegida pela «polícia do pensamento» ideológica. A petição defende a liberdade dos médicos, dos pais e, acima de tudo, das crianças, para que não sejam sacrificadas no altar da ideologia de género.


quarta-feira, 8 de abril de 2026

Educação Sexual: Três Décadas de Declínio

 


A notícia publicada hoje no Público é um soco no estômago de qualquer pai ou mãe que ainda acredite na narrativa oficial: segundo o relatório da APAV, os crimes de natureza sexual contra menores subiram 85% em apenas quatro anos. Um aumento desta magnitude num período tão curto não é um “acidente estatístico”. É o resultado previsível de uma experiência social iniciada nos anos 90, quando a esquerda cultural decidiu que a solução para o abuso, as DST e as gravidezes indesejadas passava por levar o sexo para dentro das salas de aula, como quem fala do tempo ou da multiplicação de fracções.

Prometeram-nos o paraíso: crianças “empoderadas” que saberiam dizer “não”, adolescentes informados que evitariam doenças e uma sociedade mais segura. Trinta e tal anos depois, o que temos? Mais abusos, mais pornografia infantil em circulação e crianças com mentes saturadas de sexo antes sequer de terem vivido a infância. 

A “educação sexual” não preveniu nada. Pelo contrário: normalizou, antecipou e, em muitos casos, facilitou o que prometia combater.

A Dra. Gabriele Kuby, na sua obra fundamental A Revolução Sexual Global, explica com clareza cirúrgica o que acontece quando se introduz o sexo na mente infantil de forma prematura. A socióloga alemã demonstra que a revolução sexual, acelerada pela ideologia de género, não liberta: inverte a ordem natural do desenvolvimento humano. A criança não é um ser sexualizado; a sua psique necessita de anos de inocência para formar identidade, limites e discernimento.

Quando se bombardeia essa mente com conteúdos explícitos — nas aulas, nos manuais, em palestras de associações LGBTQIA+ ou através de “influenciadores” que são, na verdade, pornógrafos a tempo inteiro —, o resultado não é “consciencialização”. É a destruição da infância. 

A criança passa a ver o corpo como instrumento de prazer, o outro como objecto e o sexo como algo banal, desvinculado do amor e da responsabilidade. Kuby adverte: esta hipersexualização precoce não protege contra o abuso; cria as condições psicológicas para que este se torne mais frequente e menos reconhecido como tal. Transforma potenciais vítimas em seres precocemente sexualizados e potenciais agressores em jovens que cresceram sem aprender a controlar impulsos.

É exactamente isto que vemos. Professores formados na mesma ideologia falam de “identidade de género” e “consentimento fluido” como se explicassem a tabela periódica. Associações entram nas escolas com workshops que, sob o disfarce da “inclusão”, expõem crianças de 8 ou 9 anos a conceitos que a natureza reservava para a idade adulta. Ao mesmo tempo, a pornografia — cada vez mais violenta e acessível — faz o resto. 

Os jovens não estão a ser educados; estão a ser condicionados para uma cultura onde o sexo é o centro de tudo.

Depois, há o "elefante na sala" que ninguém na esquerda quer ver: a desagregação familiar. A maior parte dos rapazes de hoje é criada por mães a solo, muitas delas assumidamente feministas, que passaram décadas a demonizar a figura do pai, a masculinidade tradicional e a família nuclear. O resultado? Uma geração de jovens sem um modelo masculino forte, sem autoridade paterna e sem uma noção clara de responsabilidade e limites. E, no entanto, os abusos continuam — e aumentam. Se a culpa fosse do "patriarcado" e dos "velhos machistas de 60 anos", como a narrativa oficial insiste, o problema estaria a diminuir com o envelhecimento dessa geração. Mas não está. Os agressores são cada vez mais jovens. 

O que falhou? A ausência do pai, a cultura que diz ao rapaz que a sua masculinidade é "tóxica" — deixando-o sem bússola moral — e a saturação sexual constante que transforma o desejo em compulsão.

Por fim, a questão que a classe política proíbe: a imigração descontrolada. Portugal abriu as portas a fluxos vindos de culturas onde a noção ocidental de protecção da infância é inexistente ou distinta. Trazer em massa indivíduos de sociedades onde certas práticas arcaicas são toleradas não é “diversidade”; é importar problemas graves. Os números da APAV, ao não distinguirem nacionalidades, calam-se sobre esta hipótese, mas não a desmentem.

O aumento de 85% não é um mistério. É a consequência lógica de uma ideologia que decidiu que a família tradicional é opressora e que o pai é dispensável. 

Gabriele Kuby tinha razão: a revolução sexual não liberta o ser humano; destrói-o, começando pelos mais frágeis. O relatório da APAV é o veredicto. É tempo de proteger as crianças de verdade: devolvendo a educação sexual aos pais, travando a doutrinação nas escolas e encarando, sem tabus, os impactos da imigração em massa. O silêncio cúmplice já custou caro demais.

terça-feira, 7 de abril de 2026

O Activismo Pago de Tânia Graça




No dia 29 de Março de 2026, o jornal Público publicou a crónica de Tânia Graça, “Quando a identidade exige prova”, onde, com a solenidade de quem descobriu a roda quadrada, a autora afirma que os projectos de lei do Chega, CDS-PP e PSD para alterar a lei da autodeterminação de género de 2018 são um escândalo porque… “propõe-se revogar uma lei sem demonstrar que ela esteja a causar danos ou que não proteja quem dela precisa”. E remata, segundo os excertos públicos, com a defesa da “autodeterminação e dos direitos sexuais”.

Direitos sexuais, claro. Porque, para a doutora Graça, psicóloga clínica e sexóloga de serviço público, o direito das mulheres a espaços seguros, a desportos justos, a prisões sem violadores autoidentificados, ou o direito das crianças a não serem medicalizadas com base num sentimento passageiro é, evidentemente, secundário. O que importa é a “identidade”. Essa coisa etérea, subjectiva e, pelos vistos, imune a qualquer prova empírica.

Ora bem. Sejamos assertivos e directos, pois a senhora não se coíbe de o ser quando defende a sua causa.

Primeiro: Tânia Graça é uma transactivista assumida. Não é segredo, nem uma 'interpretação maldosa'. Basta ler o seu historial no próprio Público: em Julho de 2024, escreveu 'Junho acabou, mas o orgulho não', onde sentencia que 'a orientação sexual e identidade de género de cada um/uma não se ensina nem se aprende'. (Ora bem: se a orientação sexual e a identidade de género 'não se ensinam nem se aprendem', como Tânia Graça escreveu, então por que razão as associações LGBTQIA+ têm tanta pressa em invadir as escolas para falar exactamente disso? E por que razão a Tânia não pára de 'normalizar' e promover tais orientações como se fossem a salvação da humanidade? Estranha contradição esta: algo que 'não se ensina', mas que exige tanto activismo pedagógico…) Em Outubro de 2023, no texto 'Miss Portugal e a perseguição às pessoas trans', apela a que 'nos eduquemos, procuremos ler e ouvir pessoas trans'. É o alinhamento total com a narrativa: a identidade de género é sagrada e qualquer questionamento é 'perseguição'. O clássico activismo travestido de crónica 'progressista'.

Segundo: o seu trabalho é, efectivamente, financiado por dinheiros públicos. Não é uma freelancer puramente privada. É cronista no Público (privado, conceda-se), mas tem um segmento fixo, “Voz de Cama”, na Antena 3 da RTP, participa em “Divagar é preciso” na RTP Notícias e aparece regularmente em emissões do serviço público de rádio e televisão. A RTP é financiada pelo Orçamento do Estado e pela taxa audiovisual que todos pagamos. Além disso, é convidada recorrente em eventos sobre “igualdade de género” em institutos politécnicos públicos (IPS, IPCA, etc.), onde é remunerada para falar de sexualidade, empoderamento feminino… e, claro, "identidade de género". O seu ganha-pão tem um selo oficial: o dinheiro dos contribuintes.

Terceiro: por isso mesmo, quando escreve contra qualquer alteração à lei da autodeterminação de género, não está a fazer jornalismo, nem ciência, nem psicologia séria. Está a defender o seu sustento. Se a lei cair, se for exigida prova médica ou psicológica para a mudança de sexo legal (como em países sérios que já recuaram), se o debate se centrar em evidências (como o Cass Review, a explosão de raparigas autistas em transição, desportistas masculinos a retirar medalhas a mulheres, prisões mistas ou o arrependimento de detransitioners), o seu nicho ideológico perde oxigénio. E, com ele, desaparecem os convites, os podcasts, as crónicas e os honorários pagos com o nosso dinheiro.

É o conflito de interesses mais descarado: uma sexóloga cujo currículo se constrói sobre a promoção da ideologia de género vem dizer-nos, com um ar de superioridade moral, que não há 'prova' de danos na lei de 2018. Danos? Basta abrir os olhos — ou, em Portugal, tentar aceder aos dados que teimam em não ser tornados públicos — e observar o que sucede em países onde a ideologia de género foi implementada há mais tempo. Mulheres agredidas em casas de banho, raparigas a perder bolsas de estudo para rapazes que se 'identificam' como raparigas, clínicas de género a prescrever bloqueadores a menores sem um diagnóstico rigoroso… e, claro, o caso de um homem que se identifica como mulher e que, após ser colocado numa prisão feminina - em Portugal -, cometeu agressões. Mas tudo isto, para a doutora Graça, é irrelevante. Porque a 'identidade exige prova'… desde que não seja a sua própria identidade como activista profissional.

Isto não é opinião neutra; é activismo pago com impostos. É a mesma pessoa que enche auditórios públicos a falar de “igualdade de género” e que, coincidentemente, nunca questiona a ideologia que lhe garante visibilidade e rendimento. É o axioma clássico: quem vive da narrativa não pode permitir que a narrativa morra.

Enquanto houver dinheiro público a financiar esta doutrinação disfarçada de “educação sexual” e “defesa de direitos”, continuaremos a ter cronistas como Tânia Graça a carpir que “a identidade exige prova”. Pois exige, doutora. Exige prova de que a lei não está a destruir direitos das mulheres e a sacrificar crianças. E essa prova existe em abundância — basta ter a coragem intelectual de a encarar.

O resto é apenas um caldo ideológico, servido à custa do contribuinte. E o contribuinte já está farto de pagar para que lhe digam que 2+2=5, desde que o 5 se identifique como 4.

Cúmplices do Irreversível: O Jornalismo da SIC e a Mutilação Ideológica de Menores

 


Ontem, na SIC, num segmento do "Raio-X", um comentador LGBTQIA+ abordou a petição entregue na Assembleia da República que solicita a descriminalização das chamadas “terapias de conversão sexual” e o fim da “ideologia de género”. Em vez de uma análise serena e factual, assistimos a uma operação clássica de confusão deliberada: misturar orientação sexual (homossexualidade) com identidade de género (transexualismo), como se fossem a mesma coisa. Como se opor-se à medicalização irreversível de menores fosse equivalente a perseguir homossexuais. Como se a evidência científica que se acumula contra o modelo de “afirmação de género” fosse mera “ignorância” ou “ódio”. Isto não é jornalismo. É militância ideológica com consequências letais. E a SIC, ao dar palco a esta narrativa sem um contraditório rigoroso, torna-se cúmplice.

Sejamos claros desde o início, como exige a honestidade intelectual: um adulto pode identificar-se como quiser. Pode viver a sua vida, mudar de nome, de pronome ou até submeter-se a cirurgias, se essa for a sua escolha informada e consciente. 

O sujeito é adulto e o corpo é seu. Mas as crianças não são adultas. As crianças não têm capacidade de consentimento para decisões irreversíveis que envolvem hormonas cruzadas, bloqueadores da puberdade e mutilação de órgãos saudáveis. Permitir que activistas e media coloquem a “afirmação incondicional” acima dos pais, da biologia e da evidência científica é, não só anticientífico, como eticamente indefensável. E é perigoso.

A Fraude da Conflação: Orientação Sexual ≠ Identidade de Género

Após anos de pressão do movimento LGBT, no dia 17 de Maio de 1990, a OMS retirou a homossexualidade da Classificação Internacional de Doenças (CID), deixando de a considerar uma patologia. Por conseguinte, a partir daí, a homossexualidade passou a ser considerada uma orientação sexual: atracção por pessoas do mesmo sexo. O transexualismo, ou disforia de género, é uma incongruência percebida entre o sexo biológico e a identidade subjectiva. São fenómenos distintos, com etiologias diferentes e respostas clínicas distintas. Historicamente, a despatologização da homossexualidade nunca implicou a medicalização de menores saudáveis. Hoje, porém, o activismo trans tenta esconder-se atrás da bandeira arco-íris para impor um modelo que nada tem a ver com os direitos dos homossexuais: o de que o “género é um espectro”, que a disforia se resolve com hormonas e bisturi, e que qualquer questionamento é rotulado como “transfobia” ou “terapia de conversão”.

O comentador da SIC fez exactamente isso: misturou os dois temas para deslegitimar a petição. Como se proteger crianças da experimentação médica fosse atacar os homossexuais. Esta táctica não é nova. É a mesma que ignora que a esmagadora maioria das crianças com disforia de género (80-90% em estudos clássicos) resolve naturalmente a disforia na puberdade se não for medicalizada — especialmente as raparigas com comorbilidades psiquiátricas ou autismo. Ignorar isto não é “inclusão”. É negligência.

A Evidência que o Activismo e a SIC Ignoram Propositadamente

Enquanto a SIC e o comentador repetem o mantra de que a “afirmação salva vidas”, a ciência europeia tem vindo a desmontar o "modelo holandês" que serviu de base a toda esta prática. O RelatórioCass (Reino Unido, 2024), uma revisão sistemática independente encomendada pelo NHS, concluiu que a evidência para o uso de bloqueadores da puberdade e hormonas cruzadas em menores é “notavelmente fraca”. Não há prova robusta de benefícios psicológicos a longo prazo. Há, sim, riscos claros: densidade óssea comprometida, infertilidade, disfunção sexual e impacto no desenvolvimento cerebral. Quase 100% dos jovens que iniciam bloqueadores prosseguem para as hormonas cruzadas — ou seja, o fármaco não “compra tempo para pensar”, mas acelera o caminho para a transição irreversível. O NHS britânico baniu os bloqueadores da puberdade para menores fora de ensaios clínicos rigorosos. A Suécia, a Finlândia, a Noruega e a Itália seguiram um caminho semelhante: psicoterapia exploratória primeiro, hormonas apenas em casos excepcionais e nunca por rotina.

E o mais recente estudo finlandês (Ruuska et al., Acta Paediatrica, 4 de Abril de 2026) é devastador: em mais de 2.000 jovens acompanhados, as intervenções médicas (hormonas e bloqueadores) aumentaram drasticamente a morbilidade psiquiátrica — de 9,8% para 60,7% nos casos feminizantes e de 21,6% para 54,5% nos masculinizantes. Os problemas mentais preexistentes (45-61%) não diminuem; agravam-se. A mortalidade por suicídio não cai quando controlada pela doença mental subjacente. O “contágio social” via redes sociais (TikTok, sobretudo após 2010) explica o aumento explosivo de raparigas adolescentes com disforia súbita. O blogue Politicamente Incorrecta resumiu-o bem: “A ‘afirmação’ não salva vidas: mascara o sofrimento real e multiplica-o.” 

Portugal, através da SIC e de parte da comunicação social, continua a ignorar estes dados. Prefere o activismo à ciência. Prefere repetir que o “género é um espectro” e que bloquear a puberdade constitui “cuidados de saúde”. Entretanto, países que lideraram a “afirmação” recuam dramaticamente. O silêncio sobre o estudo finlandês de 2026 não é omissão: é cumplicidade.

Deixem as Crianças em Paz

O cerne da questão é este: as crianças não são material de experimentação ideológica. Não têm maturidade neurológica para decidir sobre esterilidade, perda de capacidade orgásmica ou remoção de seios e pénis saudáveis. Os pais — e não activistas, jornalistas ou escolas — são os principais responsáveis pela protecção dos filhos. Qualquer modelo que permita a “autodeterminação de género” a partir dos 6 ou 8 anos, ou que pressione pais hesitantes com acusações de “transfobia”, é uma violação dos direitos da criança.

O activismo LGBTQIA+ tem todo o direito de defender adultos trans. Mas quando empurra a medicalização de menores, quando confunde orientação sexual com identidade de género para silenciar críticas, e quando os media, como a SIC, amplificam esta narrativa sem escrutínio, cruzam uma linha ética. Têm sangue nas mãos. Porque cada criança medicalizada precocemente que mais tarde desiste (e há cada vez mais a desistir) carrega cicatrizes irreversíveis. Porque a evidência é agora clara: o modelo afirmativo não cura; agrava.

A SIC tem o dever jornalístico de informar, não de doutrinar. Exigimos o contraditório. Exigimos que se cite o Relatório Cass, o estudo finlandês de 2026 e as reversões políticas europeias. Exigimos que se distinga claramente: direitos dos homossexuais, sim; experimentação química e cirúrgica em crianças, não.

Adultos que se identificam como transexuais merecem respeito e cuidados de saúde de qualidade baseados em evidência. As crianças merecem protecção. Ponto final. O resto é ideologia militante disfarçada de jornalismo — e a história não perdoará quem, conhecendo a evidência, escolheu calar ou distorcer. Deixem as crianças em paz.

segunda-feira, 6 de abril de 2026

A Fraude da “Afirmação”: O Lóbi Trans e a Cumplicidade da Esquerda Institucional

 




Estudo Finlandês Expõe a Fraude da “Afirmação” e o Silêncio Cúmplice dos Media e das Instituições Portuguesas

 

No dia 4 de Abril de 2026, o estudo finlandês publicado na Acta Paediatrica chegou às mãos de médicos íntegros e pais e mães de raparigas cujas vidas foram destruídas. Hoje, deve chegar a todos nós — e, sobretudo, ao Presidente da República. Com uma amostra de mais de 2.000 jovens acompanhados entre 1996 e 2019, os investigadores da Universidade de Tampere (Ruuska et al.) fizeram o que a “medicina de afirmação de género” mais teme: analisar os dados reais, a longo prazo, sem filtros ideológicos. A conclusão é devastadora e inequívoca: entre os adolescentes submetidos a intervenções médicas de redesignação sexual (hormonas e bloqueadores), a morbilidade psiquiátrica não diminuiu — aumentou drasticamente.

Passou de 9,8% para 60,7% nos casos de redesignação feminizante e de 21,6% para 54,5% nos de redesignação masculinizante. Os jovens que contactaram os serviços de identidade de género já apresentavam taxas de problemas psiquiátricos muito superiores às do grupo de controlo da população geral (45,7% vs. 15,0% antes da referenciação; 61,7% vs. 14,6% após). As intervenções físicas não resolveram nada: agravaram o quadro clínico.

Isto não é “transfobia”. É ciência. É o que a Finlândia — um dos países pioneiros na “afirmação” — tem vindo a descobrir há anos, mercê de registos nacionais rigorosos e de investigadores como Riittakerttu Kaltiala, que não se curvam à pressão activista. Estudos anteriores do mesmo grupo já haviam demonstrado que a comorbilidade psiquiátrica precede a disforia na maioria dos casos, que o fenómeno explodiu entre raparigas adolescentes após 2010 (o conhecido “efeito de contágio social”) e que nem a mortalidade por suicídio diminui quando se controla a doença mental preexistente. A “afirmação” não salva vidas: mascara o sofrimento real e multiplica-o.

E o que fazem a Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica (SPSC) e a Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP)? Exactamente o oposto do que a evidência exige. Os pareceres da SPSC defendem a “autodeterminação de género” como um direito inquestionável, classificam a disforia como mera “variante humana” e atacam qualquer restrição a bloqueadores ou hormonas como um “retrocesso”. A OPP fala em “retrocesso científico e ético” quando se propõe exigir uma avaliação clínica para menores ou proibir intervenções irreversíveis antes dos 18 anos. Entretanto, a RTP e a generalidade dos media repetem, como um mantra, que a “medicina de afirmação” é “salvadora de vidas”. É mentira. Uma mentira hedionda, paga com o dinheiro dos contribuintes e com o corpo de jovens vulneráveis.

  • Porquê esta campanha concertada de ocultação? 
  • Porquê o silêncio absoluto sobre o estudo finlandês ou sobre as revisões sistemáticas suecas e inglesas (Cass Review) que levaram esses países a recuar drasticamente na “afirmação” de menores? 
  • Porquê continuar a vender hormonas cruzadas e mastectomias a raparigas de 14 anos como se fossem “cuidados de saúde”, quando os próprios dados mostram que a saúde mental colapsa a seguir?

A resposta não reside na ciência, mas na ideologia. Na captura institucional por uma agenda que transformou a disforia de género — uma condição rara, historicamente mais comum em rapazes pré-púberes — numa “identidade” fluida que se autodiagnostica aos 12 anos nas redes sociais. Reside no lucro da indústria farmacêutica, que fornece bloqueadores e hormonas para toda a vida. Reside no medo de ser acusado de “transfobia” por questionar o dogma de que o “sexo é um espectro” e de que o corpo é um acessório descartável. Reside, enfim, na cobardia de jornalistas, psicólogos e políticos que preferem alinhar com a moda do momento do que defender a integridade corporal e a maturidade cerebral de adolescentes em crise.

Este não é um debate abstracto sobre “direitos”. É sobre raparigas autistas, depressivas ou traumatizadas que são empurradas para uma ilusão química e cirúrgica que lhes destrói a fertilidade, a densidade óssea, a capacidade de orgasmo e, como agora se prova, a saúde mental. É sobre rapazes confusos que recebem testosterona em vez de terapia para a sua disforia real. É sobre uma geração sacrificada no altar da “autodeterminação ad hoc” — o suposto direito de uma criança decidir mutilar-se porque o TikTok lhe disse que nasceu no corpo errado. É sobre associações como a AMPLOS e outras organizações LGBTQIA+ que têm entrada livre nas escolas portuguesas, confundindo crianças a partir dos 6 anos com filmes como a “Família Biscoito”, onde não existe um único biscoito heterossexual, plantando desde a infância mais precoce a semente da confusão identitária e da rejeição do corpo biológico.

A sociedade portuguesa tem o dever moral de acordar. É preciso exigir que a SPSC e a OPP expliquem, com dados, por que motivo ignoram a Finlândia. Exigir que a RTP e os jornais publiquem o estudo em vez de o silenciarem. Exigir que o Presidente da República, guardião da Constituição, proteja as crianças e os jovens de experimentações irreversíveis baseadas numa ideologia falida. A evidência é clara: a “afirmação” não cura — agrava. Quem continua a promovê-la, apesar dos factos, não defende direitos: comete um crime contra a integridade física e psíquica de uma geração.

O estudo finlandês não é apenas “mais um”. É a gota de água que faz transbordar o copo da desonestidade intelectual. Basta de esconder a ciência. Basta de sacrificar crianças em nome de uma utopia. A verdade, por mais incómoda que seja, tem de prevalecer. Antes que mais vidas sejam irremediavelmente destruídas.

O Transgenerismo como Projecto Político: Do Manifesto à Lei

 



O transgenerismo, entendido não como mera expressão individual de disforia de género, mas como movimento político organizado, emergiu nas últimas décadas como uma das bandeiras centrais da esquerda contemporânea. Longe de se limitar a uma questão de direitos civis ou de saúde mental, propõe a desconstrução radical da categoria “sexo” como realidade biológica imutável, substituindo-a pela noção fluida e performativa de “género” e “identidade de género”. Esta perspectiva crítica de género questiona esta agenda não por preconceito, mas por constatar que ela erode os direitos baseados no sexo, particularmente os das mulheres, ao mesmo tempo que serve de instrumento ideológico à esquerda pós-moderna.

Paul B. Preciado (anteriormente Beatriz Preciado), uma das principais teóricas queer, afirma explicitamente esta dimensão política, enquadrando o transgenerismo e o queer como estratégias de resistência ao “Império Sexual” e ao capitalismo "fármacopornográfico". O seu trabalho permite estabelecer a ligação directa pretendida: 

o transgenerismo não é um fenómeno apolítico ou meramente identitário; é um projecto de esquerda que retira ao sexo o seu carácter de verdade natural, em nome de uma 'multidão queer'.

Preciado, em obras como Manifesto Contrassexual (2000) e Testo Junkie: Sexo, Drogas e Biopolítica na Era Farmacopornográfica (2008/2013), posiciona-se como uma das principais arquitectas desta visão. No Manifesto Contrassexual, propõe uma “contrassexualidade” que subverte as identidades sexuais binárias, tratando o corpo como um artefacto tecnológico passível de reconfiguração. O dildo, a hormona e a prótese tornam-se ferramentas políticas de desterritorialização da "heteronormatividade". Mais do que isso, Preciado argumenta que os movimentos queer na Europa se inspiram nas culturas anarquistas e nas emergentes culturas transgénero para combater o “Império Sexual”, propondo uma “desontologização das políticas de identidades”. 

Ou seja, o queer e o trans não são meras identidades a serem assimiladas; são multidões que desestabilizam o poder através da recusa do “normal” — homem/mulher, homo/hétero, natural/artificial.

Em Testo Junkie, Preciado radicaliza esta análise ao descrever a era contemporânea como “farmacopornográfica”: um regime em que as indústrias farmacêutica e pornográfica produzem subjectividades sexuais molecularmente (através de hormonas como a testosterona) e semioticamente (através da pornografia ubíqua). A transição de género, para ela, não é apenas terapêutica; é um acto político de “biodrag” e de resistência. Ela própria narra a sua auto-experimentação com Testogel como uma “ficção somato-política”, uma forma de “comunismo tecnossomático” que redistribui os biocódigos de género, sexo e raça contra o capital. Preciado afirma que a multidão queer — composta por “sapatonas que não são mulheres, bichas que não são homens, trans que não são homens nem mulheres” — representa uma política dos “anormais” (inspirada em Foucault), capaz de desterritorializar o corpo e o espaço urbano. Esta é, inequivocamente, uma política de esquerda: anticapitalista, pós-estruturalista, influenciada por Deleuze, Derrida, Butler e pelo feminismo radical (Wittig, Haraway), mas reorientada para uma esquerda que prioriza a fluidez identitária sobre a luta de classes material ou os direitos baseados no sexo.

Da perspectiva crítica de género, esta ligação entre transgenerismo e esquerda queer não é acidental; é estruturante. O movimento transgénero, tal como teorizado por Preciado, alinha-se com o giro pós-moderno da esquerda a partir dos anos 90: após o colapso do socialismo real e o esgotamento do marxismo económico tradicional, a esquerda encontrou na “política de identidades” e na desconstrução do binário sexual um novo terreno de contestação. Judith Butler, precursora directa de Preciado, já havia tornado o género performativo (Gender Trouble, 1990); Preciado leva esse conceito ao nível molecular, integrando-o no capitalismo tardio. 

O resultado é um movimento que se apresenta como progressista e libertário, mas que, na prática, impõe uma nova ortodoxia: a negação da realidade do sexo biológico (cromossomas, gâmetas, dimorfismo sexual) em favor de uma ideologia subjectivista (“o género é o que sinto”). Esta ideologia serve a esquerda ao fragmentar a classe trabalhadora em microidentidades, desviando a atenção das desigualdades materiais para as “microagressões” e para a medicalização em massa (bloqueadores de puberdade, hormonas cruzadas, cirurgias).

Criticamente, o transgenerismo como projecto de esquerda revela contradições profundas. Preciado celebra o “colapso” do regime heteronormativo e patriarcal como uma revolução epistemológica, mas ignora — ou instrumentaliza — o facto de que esta “revolução” é financiada e promovida por grandes corporações farmacêuticas e tecnológicas, precisamente o capitalismo que critica. O “comunismo tecnossomático” de Preciado soa libertário, mas, na prática, legitima a patologização de crianças e jovens (o fenómeno “Disforia de Género de Início Rápido” e o aumento exponencial de transidentificações entre adolescentes, sobretudo raparigas), a invasão de espaços exclusivos para mulheres (prisões, desportos, abrigos para vítimas de violência doméstica) e a censura de qualquer dissidência feminista materialista. O feminismo crítico de género, ao contrário do queer de Preciado, defende que o sexo é uma categoria material e imutável, fonte primária de opressão das mulheres. Substituir “mulher” por “pessoa que menstrua” ou “portadora de útero” não é inclusão; é o apagamento linguístico e político das mulheres como classe sexuada.

Além disso, a ligação queer-trans de Preciado revela o carácter totalitário latente desta esquerda identitária. Ao declarar que “as lésbicas não são mulheres” (Wittig, retomada por Preciado) ou que o corpo é um “ciborgue” reconfigurável, o movimento transforma a dissidência em “violência” ou “transfobia”. Activistas queer, inspirados nestas teorias, pressionam por leis de “auto-identificação” de género que eliminam salvaguardas baseadas no sexo, como se vê em vários países ocidentais. 

Do ponto de vista crítico de género, isto não liberta; reintroduz, sob roupagem progressista, uma forma de gnosticismo moderno: o corpo biológico é ilusão, o “eu interior” (a identidade de género) é a verdade espiritual. Preciado, ao afirmar que o queer é uma “política dos anormais” contra a normalização, converte o transgenerismo num instrumento de engenharia social de esquerda — uma nova forma de biopolítica que, paradoxalmente, depende do Estado e do mercado farmacêutico para se realizar.

Em suma, Paul B. Preciado não o esconde: o transgenerismo e a teoria queer são projectos políticos de esquerda, radicais e antinormativos, que visam o desmantelamento do binário sexual como pilar da ordem social. A perspectiva crítica de género reconhece esta afirmação como correcta, mas inverte o juízo de valor. Longe de ser uma libertação emancipatória, o transgenerismo funciona como um cavalo de Troia ideológico: erode os direitos das mulheres baseados no sexo, medicaliza a disforia (sobretudo juvenil) e fragmenta a esquerda em torno de identidades voláteis, desviando-a de lutas materiais concretas. Preciado oferece a teoria; a realidade material — o aumento de detransitioners, os conflitos no desporto feminino, a erosão da categoria “mulher” — oferece a crítica. Reconhecer o transgenerismo como movimento político de esquerda não é uma conspiração; é uma análise lúcida. E é precisamente por isso que o feminismo crítico de género continua a resistir: não contra pessoas trans, mas contra a ideologia que as instrumentaliza para reescrever a realidade biológica e os direitos sexuados.

Esta análise teórica encontra um eco imediato na actualidade política portuguesa. A recente aprovação na generalidade (Março de 2026) dos projectos de lei do Chega, PSD e CDS-PP — que visam impedir a medicalização de crianças e jovens através de bloqueadores de puberdade e travar a autodeterminação de género sem aval médico — provocou uma reacção furiosa e ruidosa dos partidos de esquerda. Para a esquerda pós-moderna, estas propostas não são vistas como uma cautela biológica ou protecção da infância, mas como um ataque directo ao projecto de 'desontologização' defendido por teóricos como Preciado. Ao rotularem estas iniciativas como 'retrocessos' ou 'discursos de ódio', os movimentos queer e os seus representantes políticos confirmam a tese central: a transição de menores é, para este sector, um pilar inegociável de uma agenda que prioriza a fluidez identitária sobre a realidade material do corpo. 

A fúria da esquerda parlamentar perante a salvaguarda do sexo biológico prova que, no Portugal de hoje, o corpo das crianças tornou-se o novo campo de batalha de um projecto político que recusa a natureza em nome da ideologia.