Ontem, na SIC, num segmento do "Raio-X", um
comentador LGBTQIA+ abordou a petição entregue na Assembleia da República que
solicita a descriminalização das chamadas “terapias de conversão sexual” e o
fim da “ideologia de género”. Em vez de uma análise serena e factual,
assistimos a uma operação clássica de confusão deliberada: misturar orientação
sexual (homossexualidade) com identidade de género (transexualismo), como se
fossem a mesma coisa. Como se opor-se à medicalização irreversível de menores
fosse equivalente a perseguir homossexuais. Como se a evidência científica que
se acumula contra o modelo de “afirmação de género” fosse mera “ignorância” ou
“ódio”. Isto não é jornalismo. É militância ideológica com consequências
letais. E a SIC, ao dar palco a esta narrativa sem um contraditório rigoroso,
torna-se cúmplice.
Sejamos claros desde o início, como exige a honestidade intelectual: um adulto pode identificar-se como quiser. Pode viver a sua vida, mudar de nome, de pronome ou até submeter-se a cirurgias, se essa for a sua escolha informada e consciente.
O sujeito é adulto e o corpo é seu. Mas as crianças não são adultas. As crianças não têm capacidade de consentimento para decisões irreversíveis que envolvem hormonas cruzadas, bloqueadores da puberdade e mutilação de órgãos saudáveis. Permitir que activistas e media coloquem a “afirmação incondicional” acima dos pais, da biologia e da evidência científica é, não só anticientífico, como eticamente indefensável. E é perigoso.
A Fraude da Conflação: Orientação Sexual ≠ Identidade de
Género
Após anos de pressão do movimento LGBT, no dia 17 de Maio de
1990, a OMS retirou a homossexualidade da Classificação Internacional de
Doenças (CID), deixando de a considerar uma patologia. Por conseguinte, a
partir daí, a homossexualidade passou a ser considerada uma orientação sexual:
atracção por pessoas do mesmo sexo. O transexualismo, ou disforia de género, é
uma incongruência percebida entre o sexo biológico e a identidade subjectiva.
São fenómenos distintos, com etiologias diferentes e respostas clínicas
distintas. Historicamente, a despatologização da homossexualidade nunca
implicou a medicalização de menores saudáveis. Hoje, porém, o activismo trans
tenta esconder-se atrás da bandeira arco-íris para impor um modelo que nada tem
a ver com os direitos dos homossexuais: o de que o “género é um espectro”, que
a disforia se resolve com hormonas e bisturi, e que qualquer questionamento é
rotulado como “transfobia” ou “terapia de conversão”.
O comentador da SIC fez exactamente isso: misturou os dois
temas para deslegitimar a petição. Como se proteger crianças da experimentação
médica fosse atacar os homossexuais. Esta táctica não é nova. É a mesma que
ignora que a esmagadora maioria das crianças com disforia de género (80-90% em
estudos clássicos) resolve naturalmente a disforia na puberdade se não for
medicalizada — especialmente as raparigas com comorbilidades psiquiátricas ou
autismo. Ignorar isto não é “inclusão”. É negligência.
A Evidência que o Activismo e a SIC Ignoram
Propositadamente
Enquanto a SIC e o comentador repetem o mantra de que a
“afirmação salva vidas”, a ciência europeia tem vindo a desmontar o
"modelo holandês" que serviu de base a toda esta prática. O RelatórioCass (Reino Unido, 2024), uma revisão sistemática independente encomendada pelo
NHS, concluiu que a evidência para o uso de bloqueadores da puberdade e
hormonas cruzadas em menores é “notavelmente fraca”. Não há prova robusta de
benefícios psicológicos a longo prazo. Há, sim, riscos claros: densidade óssea
comprometida, infertilidade, disfunção sexual e impacto no desenvolvimento
cerebral. Quase 100% dos jovens que iniciam bloqueadores prosseguem para as
hormonas cruzadas — ou seja, o fármaco não “compra tempo para pensar”, mas
acelera o caminho para a transição irreversível. O NHS britânico baniu os
bloqueadores da puberdade para menores fora de ensaios clínicos rigorosos. A
Suécia, a Finlândia, a Noruega e a Itália seguiram um caminho semelhante:
psicoterapia exploratória primeiro, hormonas apenas em casos excepcionais e
nunca por rotina.
E o mais recente estudo finlandês (Ruuska et al., Acta
Paediatrica, 4 de Abril de 2026) é devastador: em mais de 2.000 jovens
acompanhados, as intervenções médicas (hormonas e bloqueadores) aumentaram
drasticamente a morbilidade psiquiátrica — de 9,8% para 60,7% nos casos
feminizantes e de 21,6% para 54,5% nos masculinizantes. Os problemas mentais
preexistentes (45-61%) não diminuem; agravam-se. A mortalidade por suicídio não
cai quando controlada pela doença mental subjacente. O “contágio social” via redes
sociais (TikTok, sobretudo após 2010) explica o aumento explosivo de raparigas
adolescentes com disforia súbita. O blogue Politicamente Incorrecta resumiu-o
bem: “A ‘afirmação’ não salva vidas: mascara o sofrimento real e multiplica-o.”
Portugal, através da SIC e de parte da comunicação social, continua a ignorar estes dados. Prefere o activismo à ciência. Prefere repetir que o “género é um espectro” e que bloquear a puberdade constitui “cuidados de saúde”. Entretanto, países que lideraram a “afirmação” recuam dramaticamente. O silêncio sobre o estudo finlandês de 2026 não é omissão: é cumplicidade.
Deixem as Crianças em Paz
O cerne da questão é este: as crianças não são material de
experimentação ideológica. Não têm maturidade neurológica para decidir sobre
esterilidade, perda de capacidade orgásmica ou remoção de seios e pénis
saudáveis. Os pais — e não activistas, jornalistas ou escolas — são os
principais responsáveis pela protecção dos filhos. Qualquer modelo que permita
a “autodeterminação de género” a partir dos 6 ou 8 anos, ou que pressione pais
hesitantes com acusações de “transfobia”, é uma violação dos direitos da criança.
O activismo LGBTQIA+ tem todo o direito de defender adultos
trans. Mas quando empurra a medicalização de menores, quando confunde
orientação sexual com identidade de género para silenciar críticas, e quando os
media, como a SIC, amplificam esta narrativa sem escrutínio, cruzam uma linha
ética. Têm sangue nas mãos. Porque cada criança medicalizada precocemente que
mais tarde desiste (e há cada vez mais a desistir) carrega cicatrizes
irreversíveis. Porque a evidência é agora clara: o modelo afirmativo não cura;
agrava.
A SIC tem o dever jornalístico de informar, não de doutrinar. Exigimos o contraditório. Exigimos que se cite o Relatório Cass, o estudo finlandês de 2026 e as reversões políticas europeias. Exigimos que se distinga claramente: direitos dos homossexuais, sim; experimentação química e cirúrgica em crianças, não.
Adultos que se identificam como transexuais merecem respeito
e cuidados de saúde de qualidade baseados em evidência. As crianças merecem
protecção. Ponto final. O resto é ideologia militante disfarçada de jornalismo
— e a história não perdoará quem, conhecendo a evidência, escolheu calar ou
distorcer. Deixem as crianças em paz.
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