A Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) acaba de lançar um
comunicado que revela, com clareza cristalina, o grau de captura ideológica a
que está sujeita. No dia 22 de Março de 2026, Miguel Ricou, presidente do
Conselho de Especialidade de Psicologia Clínica e da Saúde da OPP, lamentou o
que considera um “paternalismo quase absurdo”: as alterações à lei da
autodeterminação da identidade de género aprovadas na generalidade pelo PSD,
Chega e CDS. Estas alterações proíbem a mudança de género no registo civil para
menores de 18 anos, exigem relatório médico e psicológico para adultos e, em
certos casos, vedam o acesso a hormonas ou bloqueadores da puberdade antes da
maioridade.
Para a OPP, isto constitui um “retrocesso científico, ético e
jurídico”. A identidade de género, sustenta a Ordem, “não é, em si mesma, uma
perturbação mental” e condicionar o seu reconhecimento legal a avaliações
clínicas seria “reintroduzir uma lógica de patologização”.
Permitam-me discordar com veemência. Do ponto de vista da
crítica de género — aquela que defende a realidade biológica do sexo como
binária e imutável, que prioriza a protecção das crianças e jovens sobre dogmas
activistas e que exige evidência científica rigorosa em vez de slogans
de “afirmação” —, esta posição da OPP não é ciência. É ideologia travestida de
psicologia.
Comecemos pelos factos que a OPP convenientemente ignora. A
lei de 2018, que a Ordem tanto defende, instituiu o modelo de
“autodeterminação” pura: bastava uma declaração de vontade para alterar nome e
sexo no registo civil, com salvaguardas mínimas. O resultado internacional
deste modelo é conhecido e devastador. O Reino Unido fechou a clínica Tavistock
após o escândalo que motivou o Cass Review (2024), a revisão
independente mais exaustiva alguma vez realizada. A conclusão central de Cass é
clara: a evidência a favor de bloqueadores da puberdade e hormonas de sexo
cruzado em menores é “notavelmente fraca”. Não existem estudos de qualidade que
demonstrem benefícios a longo prazo superiores aos riscos de infertilidade,
perda de densidade óssea, disfunção sexual e possível agravamento de problemas
de saúde mental subjacentes. Pelo contrário: entre 80% a 90% das crianças com
disforia de género que não são medicalizadas acabam por desistir naturalmente
da transição (taxas de desistência documentadas em múltiplos estudos pré-2010,
antes da explosão ideológica).
Suécia, Finlândia, Noruega, Dinamarca e agora Inglaterra
restringiram ou baniram estas intervenções em menores precisamente por falta de
evidência. O NHS inglês proibiu bloqueadores puberais fora de ensaios clínicos
rigorosos. A França, a Bélgica e os Países Baixos recuaram. Portugal, mercê da
OPP e de outras ordens profissionais alinhadas com o modelo WPATH (cujos
ficheiros internos revelaram manipulação de evidência e pressão política),
continua agarrado a um dogma de 2018 que o resto do mundo desenvolvido já
reconheceu como falhado.
E quanto aos adultos? Ricou questiona: “Porque é que as
pessoas com mais de 30 anos não vão poder livremente fazê-lo?” Porque a
psicologia séria sabe que o consentimento informado exige avaliação. O córtex
pré-frontal — responsável pela tomada de decisões ponderadas — só amadurece por
volta dos 25 anos. Co-morbilidades psiquiátricas (depressão, ansiedade,
autismo, trauma, PHDA) afectam mais de 70% das pessoas com disforia de género.
Exigir um relatório psicológico e médico não é “paternalismo absurdo”. É responsabilidade
ética. Transformar psicólogos em “porteiros de direitos fundamentais”, como diz
a OPP, é exactamente o que a deontologia exige quando estão em causa decisões
irreversíveis. Ou terá a OPP esquecido o seu próprio Código Deontológico, que
exige a avaliação da maturidade para o consentimento em menores até para uma
simples sessão de terapia?
A OPP vai mais longe: opõe-se à proibição do ensino da
chamada “ideologia de género” nas escolas, alegando que o silêncio aumenta o bullying.
Aqui revela-se o cerne ideológico. Não se trata da “normalidade destes
processos”. Trata-se de impor às crianças a ideia de que o sexo biológico é um
“espectro” subjectivo, de que um menino pode “ser” menina se assim o sentir, e
de que a solução para o desconforto normal da puberdade passa por fármacos
experimentais.
A crítica de género não nega a existência de disforia — um
sofrimento real que merece tratamento compassivo. Exige, sim, terapia
exploratória que investigue as causas subjacentes (autismo, homossexualidade
internalizada, trauma, pressão social via redes) em vez do modelo afirmativo do
“afirma tudo, pergunta nada”. Este modelo, como demonstram os relatos de detransitioners
(cada vez mais numerosos e vocalizados), deixou milhares de jovens mutilados e
estéreis, arrependidos de uma transição apressada.
A captura pelo lobby trans é evidente. A OPP cita as
“classificações internacionais mais recentes” (a alteração de disforia de
género para “incongruência de género” no ICD-11, fora do capítulo das
perturbações mentais). Mas ignora que essa despatologização foi política, não
científica — e que os mesmos organismos (WPATH) estão hoje sob escrutínio por
ocultar riscos e manipular directrizes. Enquanto o Cass Review, as
revisões sistemáticas suecas e finlandesas e os processos judiciais por
negligência médica (Keira Bell no Reino Unido, múltiplos casos nos EUA)
acumulam evidência, a OPP repete o mantra de 2018 como se nada tivesse
acontecido.
Os psicólogos não são activistas. São guardiões da saúde
mental. A sua missão não é validar identidades sentidas contra a realidade
biológica, mas ajudar as pessoas a navegar o desconforto com honestidade
intelectual. Exigir avaliações clínicas, proteger menores de decisões
irreversíveis e separar ideologia de educação não é um retrocesso. É progresso
civilizacional. É o regresso da razão.
A OPP tem uma escolha: continuar refém de uma ideologia que
já colapsou em meia Europa ou recuperar a sua credibilidade científica. As
crianças e jovens portugueses — e as mulheres cujos direitos são erodidos pela
confusão entre sexo e género — merecem mais do que uma “autodeterminação” sem
salvaguardas. Merecem protecção. Merecem a verdade.

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