segunda-feira, 9 de março de 2026

8 de Março: A Verdadeira História Por Trás do Dia Internacional da Mulher

 

https://imagens.publico.pt/imagens.aspx/1787247?tp=UH&db=IMAGENS&type=JPG

Anualmente, o mundo assinala o Dia Internacional da Mulher entre flores, discursos sobre empoderamento e campanhas de marketing que convertem a efeméride num evento comercial inofensivo. Contudo, sob esta fachada simbólica, esconde-se uma génese que muitos preferem distorcer. A narrativa hegemónica, replicada em escolas e universidades, evoca a tragédia de 129 operárias têxteis que, em 1857, teriam sido queimadas vivas — uma lenda propagada para alicerçar uma "verdade" colectiva. Como alerta Bérénice Levet, tal celebração tornou-se a ponta de lança de uma "nova inquisição" que, sob o pretexto da emancipação, visa desconstruir a cultura ocidental e substituir a harmonia entre os sexos pelo conflito permanente.

O Mito Desmascarado: Não Houve Incêndio em 1857

Para sustentar esta visão ideológica, recorre-se frequentemente ao mito de um incêndio ocorrido a 8 de Março de 1857. Todavia, a realidade histórica é que não ocorreu qualquer greve ou imolação de operárias nessa data. Pesquisas contemporâneas, incluindo a análise de periódicos norte-americanos da época, confirmam que este relato é uma invenção posterior, sem qualquer lastro factual. A confusão deriva, na verdade, do sinistro na fábrica Triangle Shirtwaist, em Nova Iorque, ocorrido anos mais tarde, a 25 de Março de 1911. Causado por instalações eléctricas precárias, esse acidente vitimou 146 trabalhadores — 125 mulheres e 21 homens, na maioria imigrantes judeus e italianos. Longe de ser um acto criminoso contra grevistas, tratou-se de uma tragédia agravada por condições laborais negligentes, como portas trancadas para evitar furtos.

Esta distorção cronológica foi deliberadamente forjada na década de 1950 pelo jornal comunista francês L'Humanité. O objectivo era dissimular as raízes soviéticas da celebração, tornando-a mais aceitável num Ocidente anticomunista ao apropriar-se de uma fatalidade humana para romantizar a militância feminista. Hoje, o local desse verdadeiro incêndio — integrado na Universidade de Nova Iorque — ostenta uma placa que o recorda como um catalisador de reformas laborais no quadro da democracia e do capitalismo, e não como um martírio ideológico.

A Verdadeira Origem: Raízes no Socialismo e na Revolução Russa

A verdadeira origem do 8 de Março reside, portanto, no movimento socialista europeu e na Revolução Russa. Em 1910, durante a Segunda Conferência Internacional das Mulheres Socialistas em Copenhaga, a líder alemã Clara Zetkin propôs a criação de um "Dia Internacional da Mulher" para promover os direitos das trabalhadoras segundo os ideais socialistas. Embora a proposta tenha sido aprovada por representantes de 17 países, a celebração inicial, em 1911, ocorreu a 19 de Março em nações como a Alemanha e a Áustria, focando-se no sufrágio feminino.

A fixação definitiva da data deve-se aos acontecimentos em Petrogrado. A 8 de Março de 1917 (23 de Fevereiro no calendário juliano), milhares de mulheres saíram às ruas exigindo "Pão e Paz", protestando contra a fome e a participação russa na Primeira Guerra Mundial. Esta mobilização evoluiu para uma greve geral que derrubou a monarquia czarista e abriu caminho à ascensão dos bolcheviques. Consequentemente, em 1921, a Conferência Internacional das Mulheres Comunistas em Moscovo oficializou a data, e Vladimir Lénine instituiu-a como feriado soviético. Foi apenas em 1975, durante o Ano Internacional da Mulher, que a Organização das Nações Unidas (ONU) reconheceu a efeméride, transformando um marco da revolução comunista no evento global que hoje conhecemos.

O Socialismo Soviético e a "Emancipação" da Mulher: Uma Prisão Ideológica

Inspirados nos escritos de Karl Marx, que descreviam o casamento e a família como instrumentos de opressão, os bolcheviques pregaram a "emancipação feminina" através da transição do lar para o trabalho operário. Para Lénine, o trabalho doméstico "embrutecia" a mulher, impedindo a sua plena participação política. Esta visão materializou-se em políticas como o Código da Família de 1918 e a legalização do aborto em 1920 — tornando a URSS o primeiro país a fazê-lo. Sob a influência de figuras como Alexandra Kollontai, promoveu-se a liberdade sexual e o fim da dependência económica no matrimónio, argumentando-se que só o socialismo resolveria as contradições entre a vida familiar e laboral.

Na prática, porém, esta liberdade significava servir o Estado. As mulheres foram incorporadas na força de trabalho, mas o prometido "lar comunal" nunca se concretizou plenamente. Mais tarde, em 1936, Estaline reverteu o rumo com políticas conservadoras para estabilizar a sociedade através da família nuclear. Tal como as agendas feministas modernas — que reclamam o divórcio facilitado e a "libertação" da maternidade —, este projecto constituía uma guerra contra o patriarcado e o capitalismo, bandeiras do colectivo "Pão e Rosas". Contudo, o que se vende como empoderamento é uma ideologia que prioriza o regime sobre a família, substituindo a protecção do marido pela dependência de um Estado totalitário.

Uma Data Esvaziada: Do Revolucionário ao Comercial

Com o colapso do bloco socialista, o mito das operárias queimadas serviu para "limpar" as origens comunistas da data, permitindo a sua aceitação no Ocidente capitalista. Hoje, o 8 de Março é frequentemente reduzido a flores e campanhas corporativas que ocultam a sua essência política. Todavia, no século XXI, a data recuperou o seu carácter revolucionário. Em Portugal, a Rede 8 de Março — Greve Feminista, apoiada por dezenas de colectivos (incluindo Bloco de Esquerda, LIVRE e PAN), organizou manifestações em Lisboa e Porto com lemas como "Pela Libertação de Todas as Mulheres" e "Enfrentamos o fascismo, exigimos avançar!".

Estas marchas reuniram mais de mil pessoas que, ao denunciarem retrocessos imaginários, promoveram pautas radicais de género, antirracismo e antimilitarismo. Tais eventos, descritos como resistência à "opressão patriarcal", mantêm vivo o espírito confrontacional original, transformando a data num palco de polarização ideológica. Ao perpetuar uma guerra de sexos, ignora-se os avanços reais alcançados pela sociedade democrática e pelo mercado de trabalho moderno. Como recorda Bérénice Levet, a verdadeira liberdade não reside na rejeição da nossa natureza, mas no resgate da dignidade feminina e na harmonia com o homem — libertando-nos do feminismo para recuperar a nossa humanidade.


Sem comentários:

Enviar um comentário