Anualmente, o mundo assinala o Dia Internacional da Mulher
entre flores, discursos sobre empoderamento e campanhas de marketing que
convertem a efeméride num evento comercial inofensivo. Contudo, sob esta
fachada simbólica, esconde-se uma génese que muitos preferem distorcer. A
narrativa hegemónica, replicada em escolas e universidades, evoca a tragédia de
129 operárias têxteis que, em 1857, teriam sido queimadas vivas — uma lenda
propagada para alicerçar uma "verdade" colectiva. Como alerta Bérénice
Levet, tal celebração tornou-se a ponta de lança de uma "nova
inquisição" que, sob o pretexto da emancipação, visa desconstruir a
cultura ocidental e substituir a harmonia entre os sexos pelo conflito
permanente.
O Mito Desmascarado: Não Houve Incêndio em 1857
Para sustentar esta visão ideológica, recorre-se
frequentemente ao mito de um incêndio ocorrido a 8 de Março de 1857. Todavia, a
realidade histórica é que não ocorreu qualquer greve ou imolação de operárias
nessa data. Pesquisas contemporâneas, incluindo a análise de periódicos
norte-americanos da época, confirmam que este relato é uma invenção posterior,
sem qualquer lastro factual. A confusão deriva, na verdade, do sinistro na
fábrica Triangle Shirtwaist, em Nova Iorque, ocorrido anos mais tarde, a
25 de Março de 1911. Causado por instalações eléctricas precárias, esse
acidente vitimou 146 trabalhadores — 125 mulheres e 21 homens, na maioria
imigrantes judeus e italianos. Longe de ser um acto criminoso contra grevistas,
tratou-se de uma tragédia agravada por condições laborais negligentes, como
portas trancadas para evitar furtos.
Esta distorção cronológica foi deliberadamente forjada na
década de 1950 pelo jornal comunista francês L'Humanité. O objectivo era
dissimular as raízes soviéticas da celebração, tornando-a mais aceitável num
Ocidente anticomunista ao apropriar-se de uma fatalidade humana para romantizar
a militância feminista. Hoje, o local desse verdadeiro incêndio — integrado na
Universidade de Nova Iorque — ostenta uma placa que o recorda como um
catalisador de reformas laborais no quadro da democracia e do capitalismo, e
não como um martírio ideológico.
A Verdadeira Origem: Raízes no Socialismo e na Revolução
Russa
A verdadeira origem do 8 de Março reside, portanto, no
movimento socialista europeu e na Revolução Russa. Em 1910, durante a Segunda
Conferência Internacional das Mulheres Socialistas em Copenhaga, a líder alemã
Clara Zetkin propôs a criação de um "Dia Internacional da Mulher"
para promover os direitos das trabalhadoras segundo os ideais socialistas.
Embora a proposta tenha sido aprovada por representantes de 17 países, a celebração inicial, em 1911, ocorreu a 19 de Março em nações como a Alemanha e
a Áustria, focando-se no sufrágio feminino.
A fixação definitiva da data deve-se aos acontecimentos em
Petrogrado. A 8 de Março de 1917 (23 de Fevereiro no calendário juliano),
milhares de mulheres saíram às ruas exigindo "Pão e Paz", protestando contra a fome e a participação russa na Primeira Guerra Mundial. Esta
mobilização evoluiu para uma greve geral que derrubou a monarquia czarista e
abriu caminho à ascensão dos bolcheviques. Consequentemente, em 1921, a
Conferência Internacional das Mulheres Comunistas em Moscovo oficializou a data, e Vladimir Lénine instituiu-a como feriado soviético. Foi apenas em 1975,
durante o Ano Internacional da Mulher, que a Organização das Nações Unidas
(ONU) reconheceu a efeméride, transformando um marco da revolução comunista no
evento global que hoje conhecemos.
O Socialismo Soviético e a "Emancipação" da
Mulher: Uma Prisão Ideológica
Inspirados nos escritos de Karl Marx, que descreviam o
casamento e a família como instrumentos de opressão, os bolcheviques pregaram a
"emancipação feminina" através da transição do lar para o trabalho
operário. Para Lénine, o trabalho doméstico "embrutecia" a mulher,
impedindo a sua plena participação política. Esta visão materializou-se em
políticas como o Código da Família de 1918 e a legalização do aborto em 1920 —
tornando a URSS o primeiro país a fazê-lo. Sob a influência de figuras como
Alexandra Kollontai, promoveu-se a liberdade sexual e o fim da dependência
económica no matrimónio, argumentando-se que só o socialismo resolveria as
contradições entre a vida familiar e laboral.
Na prática, porém, esta liberdade significava servir o
Estado. As mulheres foram incorporadas na força de trabalho, mas o prometido
"lar comunal" nunca se concretizou plenamente. Mais tarde, em 1936,
Estaline reverteu o rumo com políticas conservadoras para estabilizar a sociedade através da família nuclear. Tal como as agendas feministas modernas —
que reclamam o divórcio facilitado e a "libertação" da maternidade —,
este projecto constituía uma guerra contra o patriarcado e o capitalismo,
bandeiras do colectivo "Pão e Rosas". Contudo, o que se vende como
empoderamento é uma ideologia que prioriza o regime sobre a família,
substituindo a protecção do marido pela dependência de um Estado totalitário.
Uma Data Esvaziada: Do Revolucionário ao Comercial
Com o colapso do bloco socialista, o mito das operárias
queimadas serviu para "limpar" as origens comunistas da data,
permitindo a sua aceitação no Ocidente capitalista. Hoje, o 8 de Março é
frequentemente reduzido a flores e campanhas corporativas que ocultam a sua
essência política. Todavia, no século XXI, a data recuperou o seu carácter
revolucionário. Em Portugal, a Rede 8 de Março — Greve Feminista, apoiada por
dezenas de colectivos (incluindo Bloco de Esquerda, LIVRE e PAN), organizou manifestações
em Lisboa e Porto com lemas como "Pela Libertação de Todas as
Mulheres" e "Enfrentamos o fascismo, exigimos avançar!".
Estas marchas reuniram mais de mil pessoas que, ao
denunciarem retrocessos imaginários, promoveram pautas radicais de género,
antirracismo e antimilitarismo. Tais eventos, descritos como resistência à
"opressão patriarcal", mantêm vivo o espírito confrontacional
original, transformando a data num palco de polarização ideológica. Ao
perpetuar uma guerra de sexos, ignora-se os avanços reais alcançados pela
sociedade democrática e pelo mercado de trabalho moderno. Como recorda Bérénice
Levet, a verdadeira liberdade não reside na rejeição da nossa natureza, mas no
resgate da dignidade feminina e na harmonia com o homem — libertando-nos do
feminismo para recuperar a nossa humanidade.
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