Recentemente, o activista colombiano Jonathan Silva (@silvajonathan01) denunciou numa publicação no X (12 de Fevereiro de 2026) um caso em que uma mãe estaria a "mudar o sexo" do seu bebé de 2 anos, classificando-o como "uma loucura". O vídeo (de cerca de 83 segundos) serve de ilustração para a sua campanha eleitoral: mostra cenas de uma criança pequena a ser apresentada com roupas, nome e pronomes do sexo oposto ao sexo biológico, com sobreposições alarmantes como "IRREVERSIBLE" e apelos para "acabar" com estas práticas no Congresso colombiano. Silva, candidato pela Salvación Nacional (número 118), enquadra este episódio na sua luta contra a "ideologia de género" aplicada a menores, prometendo proibições legislativas totais.
Este tipo de transição social precoce – mudanças não médicas como o nome social, vestuário, pronomes e tratamento conforme uma identidade auto-atribuída – é defendido por associações como a AMPLOS em Portugal. Em declarações à Lusa (2023), o presidente António Vale referiu que a lei de identidade de género (em vigor desde 2018) permite uma "transição social, que pode ser a partir dos dois, três ou quatro anos", mesmo que a mudança legal de nome e de sexo no Cartão de Cidadão só seja possível a partir dos 16 anos (com consentimento parental e declaração médica para menores de 16-17 anos). Guias da CIG (Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género), apoiados pela AMPLOS, incentivam as escolas a respeitar nomes e expressões escolhidos por crianças, incluindo o acesso a casas de banho conforme a identidade auto-atribuída, independentemente da idade.
Dados recentes confirmam um aumento significativo: segundo um balanço solicitado pelo jornal Público ao Ministério da Justiça (publicado a 27 de Janeiro de 2026), entre 2018 e 2025, quase 3300 pessoas mudaram de nome e de género no Registo Civil, das quais 323 são menores com 16 e 17 anos. O artigo intitulado “Eu odiava tudo em mim”: quase 3300 pessoas mudaram de género e de nome no Registo Civil desde 2018" destaca que, após anos de crescimento (com um pico de 606 pedidos em 2024), houve uma ligeira diminuição em 2025 (541 pedidos), possivelmente influenciada, de acordo com os promotores da ideologia de género, por discursos "anti-género". Estes números referem-se exclusivamente à mudança legal a partir dos 16 anos, mas reflectem a normalização mais ampla da autodeterminação de género, incluindo a transição social em idades mais baixas promovida por associações e guias oficiais. Desde 2018, quase 150 menores já mudaram de nome e de género no cartão de cidadão (dados de 2023 do Ministério da Justiça, reportados no Público e noutras fontes), com uma tendência de aumento anual (ex.: 45 em 2022, 69 em 2023 até ao final do ano).
Tais práticas denunciam uma normalização precoce que negligencia as etapas do desenvolvimento infantil. Mas em que consiste, afinal, a transição social e quais as razões da sua problematização?
A transição social em crianças pequenas implica que os adultos (pais, educadores) reforcem activamente uma “identidade de género” oposta ao sexo biológico, muitas vezes baseada em comportamentos não conformes (ex.: um menino que gosta de vestidos). Os defensores argumentam que tal prática protege contra o sofrimento e a discriminação. No entanto, uma análise crítica revela que:
- A identidade de género não é fixa nem "sabida" aos 2 anos — Estudos longitudinais mostram que a maioria das crianças com disforia de género (80-95%) desiste naturalmente após a puberdade, alinhando-se ao sexo biológico, se não houver reforço social ou médico precoce. A transição social actua como uma intervenção psicossocial que pode "travar" esta fluidez natural, aumentando artificialmente as taxas de persistência.
- Risco de iatrogenia — Reforçar socialmente uma identidade discordante pode conduzir a um caminho de intervenções médicas irreversíveis (bloqueadores de puberdade, hormonas cruzadas), com consequências como infertilidade, problemas ósseos e maior vulnerabilidade mental. Países como o Reino Unido e a Suécia retrocederam nestes protocolos, priorizando a terapia exploratória em vez da afirmação imediata.
- Influências externas e contágio social — Factores como a dinâmica familiar, a exposição a conteúdos online ou a pressão social podem agravar ou induzir a disforia em crianças vulneráveis (ex.: autismo, trauma, ansiedade). A transição social precoce ignora estas causas subjacentes, tratando os sintomas como uma identidade imutável.
Alertas de especialistas reconhecidos
O Dr. Kenneth Zucker, psicólogo especializado em disforia de género infantil (ex-director da Clínica de Identidade de Género em Toronto), demonstrou em estudos longitudinais que cerca de 88% das crianças com disforia desistem sem transição. Zucker critica a transição social como uma forma de reforço que perpetua a disforia em vez de permitir a exploração natural, prevendo taxas de persistência muito mais altas em crianças socialmente transicionadas.
A Dra. Michelle Cretella (ex-presidente do American College of Pediatricians – ACPeds) classifica os protocolos afirmativos como "abuso infantil institucionalizado". Argumenta que ignorar a evidência de desistência natural (80-90% pré-púbere) viola o princípio "primeiro, não causar dano". A ACPeds alerta para riscos como o isolamento psicossocial, o agravamento de problemas mentais (depressão, ansiedade, suicídio) e a falta de consentimento informado em crianças pequenas. Estes especialistas enfatizam que as crianças não têm capacidade cognitiva para compreender as implicações a longo prazo de mudanças que afectam a fertilidade, a saúde óssea e o desenvolvimento sexual.
Incentivos económicos: quem ganha com a "confusão" e a medicina afirmativa de género?
O modelo de transição precoce não é apenas ideológico: cria um fluxo constante de pacientes dependentes de tratamentos médicos vitalícios, gerando lucros substanciais para a indústria farmacêutica e médica. Crianças que iniciam a transição social precoce têm alta probabilidade de progredir para bloqueadores de puberdade (ex.: leuprolida/Lupron, um agonista GnRH), depois hormonas cruzadas (estrogénio ou testosterona) e, frequentemente, cirurgias – um percurso que transforma uma criança numa "paciente para toda a vida".
Relatórios e análises conservadoras apontam que o "complexo industrial de género" gera milhares de milhões de dólares anualmente. Por exemplo:
- O mercado de terapia hormonal de redesignação sexual nos EUA foi avaliado em cerca de 1,73 mil milhões de dólares em 2024, com projecções para 2,58 mil milhões em 2034 (crescimento anual de 4,06%).
- Bloqueadores como o Lupron (usado off-label para disforia de género) geraram mais de 5,7 mil milhões de dólares em receitas nos EUA desde o seu uso expandido.
- Um relatório da American Principles Project estima que o sector gerou 4,4 mil milhões de dólares em 2023, com projecções para 7,8 mil milhões em 2030, incluindo hospitais, clínicas e farmacêuticas.
Críticos como o senador JD Vance (EUA) e vozes em debates internacionais argumentam que a "Big Pharma" beneficia directamente: bloqueadores e hormonas requerem administração contínua (muitas vezes vitalícia), as cirurgias são caras (dezenas a centenas de milhares de dólares por procedimento) e o modelo afirmativo cria dependência precoce, maximizando receitas. Em Portugal e na Europa, embora o SNS e os sistemas públicos limitem lucros directos, a normalização precoce pode aumentar custos para o Estado e abrir portas a influências farmacêuticas globais. Esta perspectiva questiona: quem realmente ganha com a medicalização de crianças em desenvolvimento? Enquanto associações defendem "direitos", críticos vêem um modelo que prioriza o lucro sobre a evidência e o bem-estar a longo prazo.
Conclusão: Priorizar a evidência e a protecção real
O caso viral denunciado por Jonathan Silva, embora ilustrativo, ecoa preocupações legítimas: em Portugal, guias oficiais e associações como a AMPLOS promovem a transição social desde idades muito baixas (2-4 anos), incentivando a normalização em escolas e famílias, enquanto os números de mudanças legais em adolescentes (323 menores de 16-17 anos até 2025, segundo o Público) mostram a escala crescente do fenómeno. Isto representa uma ideologia que sobrepõe narrativas adultas à realidade biológica e ao desenvolvimento infantil, podendo causar mais dano que protecção – agravado por incentivos económicos que transformam a vulnerabilidade em negócio.
As políticas devem basear-se em evidência científica robusta, não em activismo ou interesses financeiros. Priorizar a terapia exploratória, a cautela com intervenções precoces e o foco no bem-estar a longo prazo das crianças – sem rotular comportamentos não conformes como "trans" desde a infância – é essencial para evitar arrependimentos irreversíveis.
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