A notícia publicada no Observador, intitulada «Há 50 anos,
foi a tribunal por causa de uma reportagem sobre o aborto. Hoje, Maria Antónia
Palla alerta: “Não se conquista nada para sempre”», apresenta-se como uma peça
jornalística retrospectiva, mas revela-se, na essência, um veículo de promoção
do activismo feminista de esquerda. Com uma forte tónica pró-aborto, o texto
retrata Maria Antónia Palla, de 93 anos, como uma figura icónica da luta pelas
liberdades femininas, ignorando contradições flagrantes no seu legado familiar
e político em prol de uma narrativa romantizada que serve mais a uma agenda
ideológica do que ao jornalismo rigoroso.
O artigo mergulha na biografia de Palla, destacando a sua
trajetória como jornalista pioneira antes e após o 25 de Abril, a sua
influência feminista e a célebre reportagem de 1976 sobre o aborto clandestino,
que resultou num processo judicial e no seu despedimento da RTP. O tom é de
celebração: Palla é pintada como uma mártir da liberdade de expressão. Contudo,
as estimativas alarmantes de 300 mil abortos anuais são apresentadas sem o
devido contraditório. Esta abordagem reforça a visão de que o aborto é uma
"escolha livre" fundamental, omitindo perspectivas éticas ou
científicas que questionam o procedimento. Palla utiliza o mote "não se
conquista nada para sempre" para alertar contra alegados retrocessos,
visando especificamente propostas do partido Chega ou declarações de João
Cotrim de Figueiredo. Esta selectividade ataca apenas as visões conservadoras,
silenciando os potenciais impactos demográficos ou psicológicos da
liberalização do aborto.
O viés ideológico é cristalino na repetição do número de 300
mil abortos clandestinos por ano. Esta estatística, usada para dramatizar uma
suposta "epidemia" mortal, é um exemplo clássico de exagero militante
sem base científica. Sendo o aborto clandestino uma prática ilegal e sem
registos, seria impossível quantificá-lo com tal precisão. Fontes
institucionais e históricas desmentem esta hiperbolização:
- APF e Rede de Médicos Sentinela (anos 90): Estimavam cerca de 20 mil abortos ilegais anuais antes da despenalização de 2007.
- Estudo Médico (Matias Dias, Marinho Falcão e Falcão, 1993-1997): Apontava para cerca de 40 mil casos anuais, com base em internamentos e diagnósticos hospitalares.
- OMS e Relatórios Internacionais: Sugeriam valores entre 17 mil e 40 mil, baseando-se na proporção de nados-vivos e complicações hospitalares.
- Contexto da década de 70: Embora houvesse quem apontasse para 100 a 200 mil, tratava-se de extrapolações grosseiras. O número de 300 mil surge quase exclusivamente em narrativas militantes (entrevistas de Palla e publicações feministas), sem qualquer metodologia declarada.
Conclusão: O número de 300 mil é insustentável e
propagandístico — inflacionado para justificar a despenalização como uma
"salvação de vidas". Contradiz os dados demográficos: Portugal
registava entre 150 a 180 mil nados-vivos por ano; 300 mil abortos implicariam
que mais de 60% das gestações seriam interrompidas, um cenário sem paralelo na
Europa. A realidade pós-2007 confirmou a falácia: os abortos legais
estabilizaram entre os 15 e os 18 mil anuais (Dados da PORDATA / DGS), provando
que o número real era da ordem das dezenas de milhar, e não das centenas.
O activismo transparece ainda na separação conveniente entre
a vida pessoal de Palla e a política. O texto insiste que a mãe de António
Costa "não mistura" família e ideologia, ignorando hipocrisias
gritantes. Sob a governação do seu filho, foi aprovada a Lei da
Autodeterminação de Género (Lei n.º 38/2018), que permite a "mudança de sexo" sem requisitos médicos rigorosos. Isto resultou em situações distópicas: homens
que se identificam como mulheres a entrar em espaços exclusivos, como os balneários
ou a Prisão de Tires, onde reclusas são obrigadas a conviver com indivíduos do
sexo masculino biológico. Haverá maior atentado aos direitos das mulheres do
que esta erosão de categorias biológicas? O artigo, ao elevar Palla a guardiã
do feminismo, silencia sobre como as políticas do seu filho contradizem o seu
suposto legado de protecção feminina.
Em suma, esta peça do Observador falha ao não oferecer uma
visão equilibrada, optando por uma hagiografia que serve o progressismo
radical. Ao omitir contradições e amplificar números sem fundamento, o
jornalismo abdica da sua missão de informar para passar a persuadir,
alimentando uma polarização desnecessária em temas de extrema sensibilidade
social.
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