Permitam-me que — ainda que não possua nenhum doutoramento na área (parece que, hoje em dia, para se falar de um assunto, seja ele qual for, é preciso um "canudo", exigência feita por quem, porventura, nem sequer um tem) — faça uma análise aos comentários ao meu artigo no Observador. Nele, defendo que a masculinidade está a ser estigmatizada por uma ideologia que prioriza narrativas em detrimento das evidências científicas e do bem-estar familiar. Argumento que a ausência da figura paterna contribui para graves problemas nos rapazes (como o abandono escolar e os comportamentos de risco), cito estudos sobre o impacto da presença do pai e incluo uma referência cristã clara: o homem criado como líder, provedor e protector (Gn 1:27-28).
O tom é de alerta contra o que considero ser "a ideologia a atropelar a ciência e a família". Os 652 comentários (à data em que decidi escrever sobre isto) revelam uma polarização profunda, típica do debate cultural actual em Portugal e no Ocidente. Estruturei esta análise por temas:
1. A necessidade da presença do pai
Vários comentários apoiam convictamente a ideia central do artigo. Reacções como as de Diana Guerreiro Rodrigues ("Os nossos rapazes precisam de pais presentes, sempre precisaram"), Nuno Pereirinha (que recorre ao exemplo dos elefantes e à transmissão de regras de pai para filho) e Paulo Vicente (que defende uma sociedade mais unida através dos valores tradicionais) reforçam que a figura paterna é insubstituível na socialização masculina.
Outros leitores, como Bruno Pedro ("Muito bom artigo") ou Filipe Rodrigues, vêem no texto um contraponto necessário à narrativa dominante da "masculinidade tóxica". Há, portanto, um reconhecimento implícito de que as ciências sociais (estudos sobre famílias monoparentais, delinquência juvenil, entre outros) sustentam a importância do pai, o que alinha com dados amplamente documentados na psicologia do desenvolvimento.
Sob uma perspectiva cristã, esta realidade ressoa profundamente com a doutrina bíblica. A família é o núcleo primordial de formação (Ef 6:4; Dt 6:6-7), cabendo ao pai um papel específico de discipulado, protecção e provisão. Negar isto não constitui progresso; é gerar desordem contra o desígnio de Deus. A ausência paterna não é um mero "fenómeno social" — resulta, muitas vezes, de políticas que facilitam o divórcio, desresponsabilizam os progenitores ou ridicularizam a autoridade masculina. A Bíblia não romantiza o pai ausente ou abusivo, mas afirma o ideal e condena o fracasso (Ml 4:6 – "converter o coração dos pais aos filhos").
2. A demonização da figura paterna (e da masculinidade)
Uma parte significativa dos comentários rejeita ou relativiza a importância do pai, enquadrando-a como uma ideologia conservadora ou religiosa ultrapassada. Linda Ova, embora reconheça a relevância paterna, acusa o artigo de criar um "falso dilema" e critica-me por falta de estofo académico (aludindo a uma suposta defesa minha de terapias de conversão, algo em que nem sequer acredito).
Carlos de Figueiredo questiona "porque está o pai distante?" e aponta para casos de pais abusivos ou indiferentes, culpando indirectamente as estruturas tradicionais. Outros leitores consideram que qualquer defesa da masculinidade bíblica equivale a um "regresso à Idade Média", à "opressão da mulher" ou à "homofobia".
Isto revela uma mundividência onde a família tradicional é vista como opcional ou opressora, e onde a "inclusão" exige a redefinição de conceitos (família, masculinidade, género) para os moldar a novas realidades. A acusação recorrentemente feita é a de que defender o papel do pai é sinónimo de querer submeter a mulher ou rejeitar as pessoas LGBT.
Perspectiva cristã: Esta demonização não liberta; escraviza a uma ideologia que nega a ordem da Criação (homem e mulher, Gn 1-2; Mt 19:4-6). A Bíblia não ignora o pecado dos pais (pois muitos falham), mas o remédio não passa por abolir o papel paterno, mas sim por redimi-lo em Cristo. Atribuir todos os males à "masculinidade patriarcal", enquanto se ignora a crise actual dos jovens do sexo masculino (suicídio, abandono escolar, radicalização), é uma postura ideológica, não científica. A verdadeira inclusão cristã ama o pecador, mas não reescreve a Criação.
3. Ataques pessoais e o que eles revelam
Os ataques dirigidos a mim são intensos e bastante reveladores. Muitos focam-se na minha vida pessoal com afirmações como: "respeita o teu filho...", "torturadora medieval", "agressora", "rejeitou o filho por ser gay", ou "self-own". Referem-se a acusações públicas do meu filho sobre terapias, maus-tratos e rejeição, sem demonstrarem a mínima preocupação com a verdade dos factos ou com o outro lado da narrativa.
Outros comentadores atacam a minha fé ("Parei a leitura no Génesis", "volta para a Bíblia"), as minhas qualificações ("escola da vida", "chalupa") ou associam-me imediatamente ao Chega e à extrema-direita. Nota-se uma enorme ironia: acusam-me de ódio enquanto utilizam uma linguagem manifestamente odiosa ("doente", "fascista", "bruxa", "execrável").
O que isto revela:
- Ad hominem como substituto de argumento: Em vez de se refutarem os dados sobre os pais ausentes, ataca-se a mensageira. Trata-se de uma reacção clássica quando uma narrativa ideológica é desafiada.
- Intolerância disfarçada de tolerância: Pregam o "deixem as pessoas viver" e a "inclusão para todos", mas demonizam quem defende a família natural ou os valores cristãos, transformando-me num símbolo do "inimigo".
- Secularismo militante: A referência bíblica é tratada como um escândalo, revelando que, para muitos, o cristianismo não deve ter lugar no debate público sobre família e sexo/género.
- Dor e projecção: Alguns ataques parecem brotar de feridas pessoais (divórcios, relações paternas difíceis, experiências LGBT). Contudo, em vez do diálogo, opta-se pelo cancelamento, exigindo-se que o Observador deixe de publicar os meus artigos. Se isto é feito apenas por não estarem alinhados com as crenças de alguns, não será isto censura e intolerância?
Sob a óptica cristã, este cenário entristece-me. Jesus ensina-nos a amar os inimigos e a falar a verdade com graça (Ef 4:15). Como cristã, sei que enfrento o mesmo que tantos outros crentes hoje em dia: ser rotulada de odiosa por defender o que a Escritura ensina sobre sexualidade, família e sexo/género (Rm 1; 1Co 6; Ef 5). Os ataques pessoais expõem o vazio espiritual da cultura contemporânea — quando se rejeita Deus, a família dissolve-se e a masculinidade torna-se "tóxica" por definição. Porém, a resposta cristã não é a retaliação, mas a perseverança na verdade: "Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem, mal" (Is 5:20).
Em resumo:
Estes comentários ilustram uma sociedade fracturada. De um lado, encontram-se os que vêem na defesa da masculinidade e da família natural um retorno ao bom senso, à ciência e à fé; do outro, os que encaram essa defesa como uma ameaça à autonomia individual e ao progresso. O tom predominantemente emocional e moralista dos ataques revela que o debate abandonou, há muito, o terreno da razão para entrar no campo da identidade e do poder cultural.
Esta reacção expõe também uma exigência estúpida e profundamente ignorante por parte dos arautos do cancelamento: a de que é obrigatório possuir um curso académico para emitir uma opinião sobre os assuntos do dia-a-dia. Pretendem confinar o debate público a uma elite titulada, como se um "canudo" fosse sinónimo de bom-senso ou garantia de capacidade para ler o mundo que nos rodeia. Sou do tempo em que as pessoas não precisavam de ostentar diplomas para demonstrarem uma cultura geral muito acima da média. Hoje, infelizmente, caímos no ridículo de acreditar que, para falar da beleza da natureza, temos de ser biólogos, e que para comentar as fases da lua, precisamos de um diploma de astrónomos. Pretende-se cassar ao cidadão atento e comum o direito elementar de observar, pensar e validar a realidade à sua volta.
Como cristã, creio que o artigo toca numa ferida real: a erosão da família está a custar caro aos rapazes — e à sociedade. Deus desenhou a figura do pai com um propósito firme. Ignorá-lo ou diabolizá-lo não é compaixão; é crueldade disfarçada de progresso. Ao mesmo tempo, a Igreja de Cristo deve reconhecer os falhanços reais (pais abusivos, hipocrisia) e oferecer redenção, e não apenas condenação. O ódio pessoal que me dirigem revela mais sobre os atacantes do que sobre mim: expõe uma cultura que já não tolera a dissidência moral.
Que Deus conceda sabedoria a todos os envolvidos, traga cura às famílias despedaçadas e dê coragem para defender a verdade com amor. "Fortalecei-vos no Senhor e na força do seu poder" (Ef 6:10).
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