quinta-feira, 21 de maio de 2026

Entre a Fé, a Ciência e o Cancelamento: O Debate sobre a Família Hoje



Permitam-me que — ainda que não possua nenhum doutoramento na área (parece que, hoje em dia, para se falar de um assunto, seja ele qual for, é preciso um "canudo", exigência feita por quem, porventura, nem sequer um tem) — faça uma análise aos comentários ao meu artigo no Observador. Nele, defendo que a masculinidade está a ser estigmatizada por uma ideologia que prioriza narrativas em detrimento das evidências científicas e do bem-estar familiar. Argumento que a ausência da figura paterna contribui para graves problemas nos rapazes (como o abandono escolar e os comportamentos de risco), cito estudos sobre o impacto da presença do pai e incluo uma referência cristã clara: o homem criado como líder, provedor e protector (Gn 1:27-28).

O tom é de alerta contra o que considero ser "a ideologia a atropelar a ciência e a família". Os 652 comentários (à data em que decidi escrever sobre isto) revelam uma polarização profunda, típica do debate cultural actual em Portugal e no Ocidente. Estruturei esta análise por temas:

1.       A necessidade da presença do pai

Vários comentários apoiam convictamente a ideia central do artigo. Reacções como as de Diana Guerreiro Rodrigues ("Os nossos rapazes precisam de pais presentes, sempre precisaram"), Nuno Pereirinha (que recorre ao exemplo dos elefantes e à transmissão de regras de pai para filho) e Paulo Vicente (que defende uma sociedade mais unida através dos valores tradicionais) reforçam que a figura paterna é insubstituível na socialização masculina.

Outros leitores, como Bruno Pedro ("Muito bom artigo") ou Filipe Rodrigues, vêem no texto um contraponto necessário à narrativa dominante da "masculinidade tóxica". Há, portanto, um reconhecimento implícito de que as ciências sociais (estudos sobre famílias monoparentais, delinquência juvenil, entre outros) sustentam a importância do pai, o que alinha com dados amplamente documentados na psicologia do desenvolvimento.

Sob uma perspectiva cristã, esta realidade ressoa profundamente com a doutrina bíblica. A família é o núcleo primordial de formação (Ef 6:4; Dt 6:6-7), cabendo ao pai um papel específico de discipulado, protecção e provisão. Negar isto não constitui progresso; é gerar desordem contra o desígnio de Deus. A ausência paterna não é um mero "fenómeno social" — resulta, muitas vezes, de políticas que facilitam o divórcio, desresponsabilizam os progenitores ou ridicularizam a autoridade masculina. A Bíblia não romantiza o pai ausente ou abusivo, mas afirma o ideal e condena o fracasso (Ml 4:6 – "converter o coração dos pais aos filhos").

2.       A demonização da figura paterna (e da masculinidade)

Uma parte significativa dos comentários rejeita ou relativiza a importância do pai, enquadrando-a como uma ideologia conservadora ou religiosa ultrapassada. Linda Ova, embora reconheça a relevância paterna, acusa o artigo de criar um "falso dilema" e critica-me por falta de estofo académico (aludindo a uma suposta defesa minha de terapias de conversão, algo em que nem sequer acredito).

Carlos de Figueiredo questiona "porque está o pai distante?" e aponta para casos de pais abusivos ou indiferentes, culpando indirectamente as estruturas tradicionais. Outros leitores consideram que qualquer defesa da masculinidade bíblica equivale a um "regresso à Idade Média", à "opressão da mulher" ou à "homofobia".

Isto revela uma mundividência onde a família tradicional é vista como opcional ou opressora, e onde a "inclusão" exige a redefinição de conceitos (família, masculinidade, género) para os moldar a novas realidades. A acusação recorrentemente feita é a de que defender o papel do pai é sinónimo de querer submeter a mulher ou rejeitar as pessoas LGBT.

Perspectiva cristã: Esta demonização não liberta; escraviza a uma ideologia que nega a ordem da Criação (homem e mulher, Gn 1-2; Mt 19:4-6). A Bíblia não ignora o pecado dos pais (pois muitos falham), mas o remédio não passa por abolir o papel paterno, mas sim por redimi-lo em Cristo. Atribuir todos os males à "masculinidade patriarcal", enquanto se ignora a crise actual dos jovens do sexo masculino (suicídio, abandono escolar, radicalização), é uma postura ideológica, não científica. A verdadeira inclusão cristã ama o pecador, mas não reescreve a Criação.

3.       Ataques pessoais e o que eles revelam

Os ataques dirigidos a mim são intensos e bastante reveladores. Muitos focam-se na minha vida pessoal com afirmações como: "respeita o teu filho...", "torturadora medieval", "agressora", "rejeitou o filho por ser gay", ou "self-own". Referem-se a acusações públicas do meu filho sobre terapias, maus-tratos e rejeição, sem demonstrarem a mínima preocupação com a verdade dos factos ou com o outro lado da narrativa.

Outros comentadores atacam a minha fé ("Parei a leitura no Génesis", "volta para a Bíblia"), as minhas qualificações ("escola da vida", "chalupa") ou associam-me imediatamente ao Chega e à extrema-direita. Nota-se uma enorme ironia: acusam-me de ódio enquanto utilizam uma linguagem manifestamente odiosa ("doente", "fascista", "bruxa", "execrável").

O que isto revela:

  • Ad hominem como substituto de argumento: Em vez de se refutarem os dados sobre os pais ausentes, ataca-se a mensageira. Trata-se de uma reacção clássica quando uma narrativa ideológica é desafiada.
  • Intolerância disfarçada de tolerância: Pregam o "deixem as pessoas viver" e a "inclusão para todos", mas demonizam quem defende a família natural ou os valores cristãos, transformando-me num símbolo do "inimigo".
  • Secularismo militante: A referência bíblica é tratada como um escândalo, revelando que, para muitos, o cristianismo não deve ter lugar no debate público sobre família e sexo/género.
  • Dor e projecção: Alguns ataques parecem brotar de feridas pessoais (divórcios, relações paternas difíceis, experiências LGBT). Contudo, em vez do diálogo, opta-se pelo cancelamento, exigindo-se que o Observador deixe de publicar os meus artigos. Se isto é feito apenas por não estarem alinhados com as crenças de alguns, não será isto censura e intolerância?

Sob a óptica cristã, este cenário entristece-me. Jesus ensina-nos a amar os inimigos e a falar a verdade com graça (Ef 4:15). Como cristã, sei que enfrento o mesmo que tantos outros crentes hoje em dia: ser rotulada de odiosa por defender o que a Escritura ensina sobre sexualidade, família e sexo/género (Rm 1; 1Co 6; Ef 5). Os ataques pessoais expõem o vazio espiritual da cultura contemporânea — quando se rejeita Deus, a família dissolve-se e a masculinidade torna-se "tóxica" por definição. Porém, a resposta cristã não é a retaliação, mas a perseverança na verdade: "Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem, mal" (Is 5:20).

Em resumo:

Estes comentários ilustram uma sociedade fracturada. De um lado, encontram-se os que vêem na defesa da masculinidade e da família natural um retorno ao bom senso, à ciência e à fé; do outro, os que encaram essa defesa como uma ameaça à autonomia individual e ao progresso. O tom predominantemente emocional e moralista dos ataques revela que o debate abandonou, há muito, o terreno da razão para entrar no campo da identidade e do poder cultural.

Esta reacção expõe também uma exigência estúpida e profundamente ignorante por parte dos arautos do cancelamento: a de que é obrigatório possuir um curso académico para emitir uma opinião sobre os assuntos do dia-a-dia. Pretendem confinar o debate público a uma elite titulada, como se um "canudo" fosse sinónimo de bom-senso ou garantia de capacidade para ler o mundo que nos rodeia. Sou do tempo em que as pessoas não precisavam de ostentar diplomas para demonstrarem uma cultura geral muito acima da média. Hoje, infelizmente, caímos no ridículo de acreditar que, para falar da beleza da natureza, temos de ser biólogos, e que para comentar as fases da lua, precisamos de um diploma de astrónomos. Pretende-se cassar ao cidadão atento e comum o direito elementar de observar, pensar e validar a realidade à sua volta.

Como cristã, creio que o artigo toca numa ferida real: a erosão da família está a custar caro aos rapazes — e à sociedade. Deus desenhou a figura do pai com um propósito firme. Ignorá-lo ou diabolizá-lo não é compaixão; é crueldade disfarçada de progresso. Ao mesmo tempo, a Igreja de Cristo deve reconhecer os falhanços reais (pais abusivos, hipocrisia) e oferecer redenção, e não apenas condenação. O ódio pessoal que me dirigem revela mais sobre os atacantes do que sobre mim: expõe uma cultura que já não tolera a dissidência moral.

Que Deus conceda sabedoria a todos os envolvidos, traga cura às famílias despedaçadas e dê coragem para defender a verdade com amor. "Fortalecei-vos no Senhor e na força do seu poder" (Ef 6:10).

O Estigma sobre a Masculinidade: Quando a Ideologia Atropela a Ciência e a Família

 



O ataque cerrado à masculinidade continua imparável, e a comunicação social parece ter encontrado o filão perfeito para alimentar narrativas tendenciosas que invertem, sistematicamente, a causa e o efeito. O exemplo mais recente chega-nos pela mão da CNN Portugal que, ao repercutir um estudo publicado na revista Criminology & Criminal Justice a 7 de Maio de 2025, ilustra como a ideologia se sobrepõe ao rigor.

O estudo em questão, realizado por investigadores do ISPA, baseia-se numa amostra curtíssima: apenas 231 rapazes portugueses de 18 e 19 anos. Através de um questionário de auto-relato — método sujeito a fortes enviesamentos —, os académicos procuraram correlacionar a «visão tradicional de masculinidade» com comportamentos delinquentes. Para estes investigadores, ser «tradicional» resume-se a uma caricatura: aceitar a violência ou procurar múltiplas parceiras. A conclusão, servida para o consumo sensacionalista, é que esta conformidade explicaria 19,4% da variação na delinquência.

O que é verdadeiramente escandaloso é que o próprio artigo científico admite ter «fraquezas graves». No entanto, tal admissão não obstou a que se utilizassem títulos bombásticos, de pendor assumidamente feminista, desenhados para enganar o leitor que se fica pelas «letras gordas». Ignora-se deliberadamente que a correlação não é causalidade: não é a masculinidade que causa o crime; é, frequentemente, a ausência de uma estrutura familiar sólida que empurra os jovens para o abismo.

O Silêncio sobre a Pornografia e o Lar sem Pai

É também imperativo questionar o silêncio ensurdecedor deste "estudo" sobre factores de risco muito mais reais e documentados. Por que razão não se menciona que a exposição precoce à pornografia é um dos mais elevados indicadores de violência sexual cometida por rapazes? Segundo dados recentes, a esmagadora maioria destes jovens vive apenas com as mães, sem a presença reguladora do pai. Sem o modelo varonil que ensina o respeito e o auto-controlo, e entregues a um consumo digital degradante, os rapazes ficam vulneráveis. O problema não é a "masculinidade tradicional", mas sim a combinação explosiva de um lar desestruturado com o vício tecnológico.

O que os dados americanos nos dizem

Ao contrário desta amostra lusa reduzida, dados longitudinais dos EUA (como o National Longitudinal Survey of Youth) revelam uma realidade incontestável que o mainstream prefere esconder: a ausência paterna é o maior indicador de criminalidade. Rapazes que crescem sem pai têm o dobro da probabilidade de serem presos até aos 30 anos, independentemente da raça ou rendimento. Cerca de 70% dos jovens em instituições de detenção juvenil provêm de lares monoparentais. Mais ainda: 72% dos assassinos adolescentes e 85% dos jovens na prisão cresceram sem a figura do pai.

O estudo de Harper & McLanahan (2004) confirma: mesmo controlando variáveis de pobreza, os jovens de lares sem pai enfrentam o dobro do risco de encarceramento. A «masculinidade tradicional» — que une força a responsabilidade — não é o veneno; a sua carência é que constitui o verdadeiro factor de risco.

A Perspectiva Bíblica e a Falácia da "Toxicidade"

A definição de masculinidade usada por estes estudos é profundamente enviesada, misturando traços positivos (coragem e resiliência) com patologias sociais. Do ponto de vista cristão, a Escritura é clara: a masculinidade é um dom de Deus. O homem foi criado para ser líder, provedor e protector (Génesis 1:27-28). O problema não reside em os rapazes serem «demasiado masculinos», mas sim em serem criados sem o modelo varonil bíblico que canaliza a força para o bem (Provérbios 22:6).

Após décadas de feminismo nas escolas, onde os rapazes são patologizados e medicados, o resultado é uma raiva internalizada. Quando se retira o pai — através de políticas que facilitam o divórcio e ridicularizam a autoridade masculina —, os rapazes ficam à deriva. A masculinidade não desaparece; distorce-se em violência sem propósito por falta de balizas.

O estudo do ISPA, e a propaganda que o amplifica, não resolve o problema; agrava-o ao fazer os rapazes sentirem-se culpados pela sua própria natureza. O antídoto não é a «flexibilidade de género», mas sim a restauração da família: pais presentes e amorosos e igrejas que preguem a doutrina da criação. A masculinidade bíblica não é o inimigo da sociedade — é a sua salvaguarda. Os dados não mentem: os nossos rapazes precisam de pais, não de mais estudos que os culpem por serem homens.

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Desmascarando o Activismo Militante do DN e da CIG (Que bem se poderia chamar Comissão para a Ideologia de Género)

 



Maria Helena Costa
Palestrante e Formadora Certificada | Escritora com +10 Obras Publicadas | Especialista em Família, Infância e Combate ao Bullying | Ex-Gestora de Equipas

O artigo do Diário de Notícias (13 de Maio de 2026, de Fernanda Câncio) apresenta os três pareceres da CIG como uma revelação chocante que “chumba” os projectos de lei da direita (PSD, Chega e CDS-PP) para restringir a Lei n.º 38/2018. O jornal enquadra-os como prova de um suposto “esconderijo” por parte do Governo e como uma defesa científica da “autodeterminação de género” e dos “cuidados afirmativos” em menores. Trata-se dum enquadramento clássico de activismo: selecciona vozes alinhadas, ignora a profunda controvérsia internacional e finge que existe um consenso científico robusto onde ele, na verdade, não existe.

A CIG, entidade pública financiada por todos os contribuintes, não age como uma comissão técnica neutra. Comporta-se como um lobista ideológico que repete acriticamente as posições da WPATH, da Endocrine Society e de pareceres activistas nacionais (SPSC, OPP, grupo dos 216), ignorando as evidências de mais alta qualidade que estão a levar dezenas de países a recuar.

Ricardo Gusmão desmonta precisamente estes pareceres activistas no seu contributo rigoroso enviado ao Parlamento. Analisando os mesmos documentos que a CIG invoca, Gusmão conclui:

  • Nos três Pareceres, para 90 referências bibliográficas, 91% (73/80 avaliáveis) correspondem a evidências de qualidade Muito Baixa ou Baixa [...] Apenas sete evidências têm valor probatório relevante [...] Nenhuma mede directamente os outcomes das duas intervenções em debate.
  • Revisões sistemáticas independentes [...] classificam a evidência disponível como de certeza muito baixa para o benefício psicológico e alta para alguns danos físicos das intervenções hormonais em menores.
  • Os Pareceres não são cientificamente robustos nem metodologicamente imparciais. [...] O princípio de non-maleficence [não-maleficência] exige que erros sejam cometidos preferencialmente por defeito, e não por excesso.”

Gusmão destaca ainda o que falta crassamente nos pareceres citados pela CIG:

  • O crescimento exponencial de casos de disforia de género (sobretudo em adolescentes do sexo feminino);As elevadas comorbilidades psiquiátricas associadas;
  • A imaturidade neurocognitiva para a prestação de consentimento informado em menores;
  • O risco real de medicalização da homossexualidade ou de meros problemas de desenvolvimento;
  • As taxas de desistência e de destransição a longo prazo.

Tudo isto está perfeitamente alinhado com o Cass Review (Reino Unido), as revisões da York University (Taylor et al., 2024), da McMaster University (Miroshnychenko et al., 2025, com Gordon Guyatt, criador do método GRADE) e com as decisões soberanas da Suécia, Finlândia, Noruega, Dinamarca e de vários estados americanos. Todos estes países restringiram ou proibiram os bloqueadores da puberdade e as hormonas em menores, precisamente devido à falta de evidência robusta de benefício e aos riscos significativos detectados.

A CIG ignora deliberadamente toda esta realidade e afirma que proibir estas intervenções «não corresponde aos pressupostos científicos» das sociedades médicas internacionais. É falso. A comissão ignora as revisões independentes de maior qualidade e limita-se a repetir as guidelines da WPATH — uma entidade cada vez mais contestada a nível global por falta de rigor (vejam-se os relatórios Cass e as recentes fugas de informação internas).

Conclusão: Activismo Ideológico Disfarçado de Ciência

O DN e a CIG transformam uma entidade pública numa autêntica trincheira ideológica. Enquanto os países desenvolvidos e sérios adoptam o princípio da precaução (“primeiro, não causar dano”), Portugal é pressionado a manter um modelo experimental, herdado de 2018, que medicaliza menores com base numa evidência fraca e altamente selectiva.

A direita (PSD, Chega, CDS) não está a «atacar direitos». Está, sim, a proteger crianças e adolescentes de intervenções irreversíveis e desprovidas de base científica sólida — exactamente como recomendam as revisões sistemáticas mais rigorosas e como Ricardo Gusmão defende com total clareza: avaliação médica obrigatória e protecção integral dos menores.

Manter a Lei n.º 38/2018 sem cautelas não é “progresso”. É dogmatismo ideológico pago com o próprio corpo e com a saúde mental de jovens vulneráveis. A CIG e o DN revelam-se, mais uma vez, meros agentes activistas — e não guardiães da cidadania, da ciência ou da igualdade.

O Direito de Educar: Entre a Autoridade Parental e a Ditadura do Activismo

 



Maria Helena Costa
Palestrante e Formadora Certificada | Escritora com +10 Obras Publicadas | Especialista em Família, Infância e Combate ao Bullying | Ex-Gestora de Equipas

Hoje, pelas 12:19h, enquanto tomava café com uma amiga, recebi uma chamada de uma jornalista da Lusa, chamada Joana (cujo apelido não recordo). Perguntou-me se estava a ligar para a Associação Família Conservadora, ao que respondi afirmativamente. Quando questionou se poderia falar com a presidente, identifiquei-me, mas notei que a minha bateria estava quase a esgotar-se e sugeri que ligasse mais tarde. A jornalista, demonstrando talvez pouquíssimo interesse na verdade dos factos, insistiu e fez questão de dizer que o assunto era, mais uma vez, o meu filho e as supostas “terapias de conversão” que eu lhe teria imposto através de violência.

Respondi-lhe convictamente: nunca existiram tais terapias. Nunca houve violência. Há um comunicado claro na minha conta do X sobre este assunto e nada mais tenho a acrescentar sobre a vida privada da minha família.

A minha amiga, que testemunhava a chamada, conhece a verdade dos factos e também tem um filho homossexual — mas que não faz disso a sua identidade total — questionou-me: porque não pegas nisto e, em vez de repetires o que já disseste, dás voz a outros pais? Pais que, por amor, tentaram proteger os filhos de um caminho que intuem trazer sofrimento; pais que, no seu entendimento, tentaram evitar que os seus filhos prosseguissem por uma via de dor. Pais que, segundo os seus valores, fé e princípios, levaram o filho a um psicólogo competente para ajudar a compreender uma identificação súbita que, até então, não existia. Terão os pais perdido o direito elementar de educar os seus filhos conforme a sua consciência?

As palavras dela fizeram todo o sentido. Percebi que tenho todo o direito de manter o silêncio para proteger a minha família, mas compreendi também que posso e devo escrever sobre este tema geral, sem expor aquilo que quero e vou continuar a resguardar. É por isso que decido quebrar o silêncio através destas linhas.

Conheço o caso de um rapaz que foi severamente coagido e maltratado (bullied) na escola por não dizer palavrões, não gostar de brincadeiras violentas e não apalpar as raparigas. Chamavam-lhe “gay” precisamente por ser mais sensível e respeitador; passados anos, depois de sofrer e chorar muitas vezes, gritando que não é gay e que não aguenta mais o bullying, esse filho verbaliza que acha que é gay porque na escola muitos diziam que ele o era. Será que os pais não têm o direito de questionar o que está a acontecer ao seu filho e de procurar ajuda psicológica não-afirmativa, isto é, neutra e exploratória?

A questão central é esta: são os partidos políticos, muitas vezes em representação de lóbis bem financiados, que devem decidir que o cuidado parental responsável é “errado” ou até “criminoso”? Foi para isso que os eleitores os elegeram — para destituírem os pais da autoridade natural sobre a educação dos filhos e os obrigarem a seguir a cartilha activista? Qual é o pai ou a mãe que não sonha ver os filhos formarem famílias e darem-lhe netos? É crime desejar descendência biológica para os nossos filhos? É crime chorar quando o filho anuncia que é gay? Temos de dar saltos de alegria para não sermos acusados de “ódio”? E quem se atreve a falar abertamente dos problemas de saúde associados a certos comportamentos sexuais de risco, da maior vulnerabilidade a determinadas doenças, ou da hostilidade que uma parte da própria sociedade ainda manifesta perante o que, para muitos de nós, não é natural?

Para os cristãos, a questão é ainda mais profunda. Não podemos renegar a nossa fé só porque um filho envereda por um caminho que, segundo a Palavra de Deus, é pecaminoso. Escreveu o apóstolo Paulo aos Coríntios:

«Não vos enganeis: nem os impuros, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os roubadores herdarão o Reino de Deus. E tais fostes alguns de vós; mas fostes lavados, mas fostes santificados, mas fostes justificados no nome do Senhor Jesus e pelo Espírito do nosso Deus.» (1 Coríntios 6:9-11)

A mensagem não é de ódio, mas de esperança: a graça de Deus transforma vidas. Sempre transformou.

Salvo raríssimas e condenáveis excepções de abuso verdadeiro, são os pais — e não os partidos ou os activistas — que querem o melhor para os seus filhos. Conhecem-nos desde o berço, amam-nos incondicionalmente e carregam a responsabilidade que Deus lhes deu.

Questiono: o meu filho é o único “caso” de “terapias de conversão” em Portugal ou isto é um ataque cerrado e selectivo à minha pessoa, à minha fé, à Associação Família Conservadora que presido e ao partido que represento? Porque, que eu saiba, não existe qualquer prova de um fenómeno generalizado de “terapias de conversão” coercivas em Portugal, como não há prova nenhuma de que o meu filho esteja a falar a verdade e não a ser instrumentalizado por aqueles que estão a tornar o caso mediático e a dar-lhe palco nas televisões e nos órgãos de comunicação social dominados pelo lóbi.

É claro e manifesto o objetivo desta cabala: a esquerda está a instrumentalizar este caso de forma despudorada para travar o debate político e tentar impedir a revogação da Lei n.º 38/2018 e da Lei n.º 15/2024. Relembro que este último diploma legislativo já se encontra, inclusive, no Tribunal Constitucional para que seja aferida, ou não, a sua evidente inconstitucionalidade.

Perante este cenário, recordo que, no fundo, só Deus converte o coração humano do pecado — os pais apenas procuram amar, proteger e orientar. Por isso, a todos os pais que estão a passar por isto em silêncio, digo-vos: não estais sozinhos. O vosso amor não é ódio. O vosso direito a educar segundo a vossa consciência não é crime. Continuai a amar os vossos filhos com mansidão e verdade. O resto pertence a Deus.