Num mundo cada vez mais influenciado pelas redes sociais e
pelas dinâmicas de grupo, surge um fenómeno intrigante e, para muitos,
preocupante: a multiplicação dos therians (ou transespécie) — indivíduos
que se identificam como animais não-humanos, seja a nível espiritual, seja
psicológico. Este movimento, que ganha tracção entre jovens e adolescentes,
pode ser atribuído a problemas mentais subjacentes e a um efeito de "contágio
social", como sugerem estudos recentes sobre representações sociais.
Em Portugal, o fenómeno já tem ecos locais: em 2024,
circulou viralmente o caso de uma aluna do Instituto Superior de Engenharia do
Porto (ISEP) que frequentou aulas com uma máscara de cão (pup hood),
inicialmente interpretado como identificação therian, mas depois
esclarecido pela própria como hobby (pup play/furry), gerando bullying e
debates intensos sobre saúde mental e inclusão; mais recentemente, anda a
circular nas redes o anúncio de um encontro de therians marcado para 26
de fevereiro de 2026, em Vila Real, em frente ao Café Club (Avenida Carvalho
Araújo), promovido como espaço seguro de "união, respeito e partilha"
para quem vive essa identidade.
Mas o que aconteceria se a sociedade levasse estas
identificações à letra? Poderia alguém que se vê como um cão eximir-se das
obrigações escolares ou, na idade adulta, do pagamento de impostos? Seria o seu
Cartão de Cidadão substituído pelo boletim de vacinas de um veterinário? Estas
questões, embora pareçam absurdas, revelam dilemas profundos para a coesão
social.
Os therians (termo derivado de therianthropy)
descrevem pessoas que sentem uma ligação profunda com uma espécie animal, como
lobos, raposas ou cães, ao ponto de adoptarem comportamentos como andar
"de gatas" ou morder terceiros. Um exemplo recente surge numa
publicação da Fundación Faro Argentina na rede social X, que descreve:
"Insólito: estas pessoas andam de gatas de forma antinatural e mordem as
pessoas por pensarem que são um lobo, uma raposa ou um cão."
Este tipo de relatos, amplificados pelas plataformas
digitais, ilustra a rapidez com que o fenómeno se propaga, frequentemente em
comunidades on-line como as de furries ou otherkin. De
acordo com uma revisão sistemática publicada no PubMed, cerca de 68% dos
casos clínicos envolvem identificações com canídeos e estão associados a
condições como esquizofrenia, depressão psicótica ou síndrome de Cotard. No
entanto, nem todos os therians representam casos clínicos; muitos
encaram-no como uma identidade não-patológica, embora diversos estudos apontem
para ligações ao autismo, esquizotipia (um conjunto de traços de personalidade
e comportamentos que se situam num espectro entre a "normalidade" e
os transtornos psicóticos (como a esquizofrenia), mas sem a perda total de
contacto com a realidade) e traumas.
Vários autores têm explorado fenómenos de contágio
comportamental, comparando-os a "epidemias virais" onde as ideias se
propagam através de interacções sociais. Num paralelo com as representações
sociais teorizadas por Serge Moscovici, o contágio emocional e comportamental
explica o aumento exponencial de therians. Plataformas como o TikTok ou
o X aceleram este efeito: um vídeo viral de alguém a comportar-se como um
animal pode influenciar milhares de jovens vulneráveis ao isolamento social ou
ao stresse. Pesquisas indicam que, para muitos, esta identificação serve
como um mecanismo de coping (adaptação) perante desafios mentais, mas
pode agravar o quadro clínico se não for devidamente abordada.
Contudo, o verdadeiro risco surge quando estas
identificações embatem na estrutura jurídica e social. Imagine-se um
adolescente que se identifica como cão: deixaria de ser obrigado a frequentar a
escola, argumentando que os animais não precisam de educação formal? Em adulto,
poderia reclamar a isenção de impostos, alegando que os animais não contribuem
para o erário público? E quanto ao acesso a cuidados de saúde? Trocar-se-ia o
médico de família por um veterinário?
Estas hipérboles acentuam o absurdo, mas apontam para um
problema real: se a sociedade acomodar tais identidades sem limites claros,
corre o risco de minar os pilares da cidadania e da responsabilidade colectiva.
Estudos sobre o bem-estar e a therianthropy revelam que, embora esta
identificação possa actuar como um factor protector para alguns indivíduos com
traços autistas, conduz frequentemente ao isolamento social e a graves
dificuldades relacionais.
Num contexto mais amplo, a normalização deste fenómeno
poderia gerar desigualdades sistémicas e sobrecarregar os serviços de saúde
mental, já sob forte pressão. Em suma, a multiplicação dos therians
reflete uma sociedade em busca desesperada de identidade, mas alerta para a
necessidade de um equilíbrio urgente. Como sugerem as investigações sobre
contágio social e o conceito de "fenómeno patofacilitante" do
psiquiatra Dr. Pedro Afonso — em que contextos facilitadores amplificam
patologias ou comportamentos disfuncionais —, sem uma intervenção adequada,
este fenómeno pode evoluir de uma mera curiosidade digital para um problema
societal de difícil resolução. É tempo de debater: até onde pode ir a liberdade
individual sem comprometer o bem comum?
Sem comentários:
Enviar um comentário