A violação é um crime abominável. Sempre o foi. No Antigo
Testamento, o violador de uma mulher era condenado à morte por apedrejamento
(Deuteronómio 22:25-27). A pena capital não era negociável: o acto de forçar
alguém contra a sua vontade era equiparado ao homicídio, pois destruía a
integridade física, moral e existencial da vítima. A civilização ocidental,
herdeira desta tradição, nunca deixou de considerar a violação — seja a vítima
mulher ou homem — como um dos piores atentados à dignidade humana. Quem a
comete deve ser punido com todo o rigor da lei. Ponto final.
Contudo, o que se observa hoje, em Portugal e no Ocidente,
não é uma defesa intransigente da vítima, mas uma banalização do conceito de
violação até ao ponto de o esvaziar de sentido. O caso recente de uma jovem
que, após iniciar uma relação sexual grupal claramente consentida, diz
"não" a meio do acto, ilustra esta deriva. Cristina Ferreira
atreveu-se a dizer o óbvio: num cenário de sexo grupal, "dizer não a meio
(...) era difícil ouvirem-na". Por isto, está a ser crucificada.
Sejamos frontalmente honestos, como exige Bérénice Levet em
Libertem-nos do Feminismo. A filósofa francesa desmonta o feminismo
contemporâneo que transformou a mulher de sujeito livre em eterna vítima
potencial. Mas é em Camille Paglia, na sua obra Mulheres Livres, Homens Livres,
que encontramos o alerta mais agudo: ao incutir nas jovens a ideia de que o
"não" é um escudo mágico e instantâneo, o feminismo ideológico está a
enviá-las directamente para o perigo ao ignorar a necessidade vital de prudência
individual.
Paglia recorda-nos que o sexo é "daemónico" — uma
força que não obedece a regras de etiqueta. Para ela, a liberdade sexual exige
uma consciência vigilante dos riscos. Exercer a prudência — saber ler o
ambiente, avaliar o carácter dos parceiros e não se colocar em situações de
vulnerabilidade extrema com desconhecidos — não é uma limitação da liberdade,
mas a sua condição de existência. A prudência é a ferramenta da mulher adulta
que reconhece que o mundo real não é um campus universitário protegido.
É fundamental reiterar: defender a prudência individual não significa, de modo algum, culpar a mulher quando ocorre uma violação real. Se um homem ignora um "não" inequívoco, se usa a força ou se aproveita da incapacidade da vítima, ele é o único culpado e deve enfrentar a mão pesada da justiça. A responsabilidade penal é sempre do agressor. Todavia, reconhecer a culpa do criminoso não anula o dever de cautela da vítima potencial. Tal como trancar a porta de casa não desculpa o ladrão, mas evita o roubo, a prudência feminina serve para prevenir o horror que a lei, chegando sempre depois do acto, já não pode apagar.
O problema surge quando o acto consentido gera
arrependimento e o feminismo oferece a solução de chamar "violação" a
um erro de julgamento. Esta visão infantiliza a mulher. O feminismo do
"meu corpo, minhas regras" nega-lhe, ironicamente, a capacidade de
dizer: "assumi um risco e perdi".
A violação verdadeira — o acto cometido contra a vontade
clara ou que ignora um "não" manifesto — deve ser punida com a máxima
severidade. É um crime hediondo. Mas a "violação" que nasce apenas de
uma reescrita da história após um arrependimento não é crime. Como diria
Paglia, é o preço de uma liberdade que exige maturidade.
É urgente travar esta inflação semântica. Caso contrário, o
verdadeiro violador sairá impune no meio de uma multidão de supostas
"vítimas" que apenas não souberam gerir a sua própria liberdade. E
será a dignidade da mulher — e a clareza da justiça — a pagar o preço mais
alto.

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